Opinião: A guerra pervertida e sem rumo na Síria

Kersten Knipp (av)

Cada vez mais fica provado que o conflito sírio carece de toda lógica. Responsáveis por isso são potências cínicas, sem estratégia de longo prazo, mas apenas táticas imediatistas, opina o jornalista Kersten Knipp.Acompanhar a lógica das potências interventoras na Síria significa adentrar uma matemática perversa. Quem faz pacto com quem, por quê? Nenhuma conta mais fecha, as equações só se sustentam por uns momentos – diga-se, dias –, para então desmoronarem.

Aí a análise recomeça do zero. Novo caos, nova tentativa de compreender a lógica das alianças; à noite, então, vem a constatação de que também as novas teses só valerão por pouco tempo. Ou seja: as motivações dos protagonistas perderam toda a racionalidade, pelo menos uma que valha por mais do que alguns dias ou semanas.



Tome-se, por exemplo, a invasão de Afrin pela Turquia. Segundo diversos analistas, Moscou teria dado a Ancara sinal verde para tal. A Rússia, a potência protetora do ditador Bashar al-Assad? Mas por quê? De Moscou, nem uma palavra a respeito. Uma das suposições é que, com a ofensiva na Síria, Ancara provoca por tabela os Estados Unidos, aliado dos curdos sírios.

Trata-se, portanto, de um desvirtuamento, de uma confrontação talvez até entre dois parceiros da Otan. Do ponto de vista russo, deduz-se, essa tensão é extremamente bem-vinda, contribuindo para corroer a coesão interna da organização, tanto mais considerando-se as tensões relativas à Ucrânia.

Talvez, supõem outros, o plano dos russos seja outro: dar sinal verde para a campanha da Turquia na Síria, para que esta se aferre a uma guerra de desgaste da qual sairia enfraquecida, tendo que, por fim, apelar para a Rússia. Isso significaria que o placar está Rússia 1, Turquia 0.

A coisa toda não tem mais muito a ver com a Síria, são jogos de poder travados com uma falta de escrúpulos sem igual. A Turquia – bem ou mal, país-membro da Otan – marcha descaradamente sobre um outro país. O Irã se estabelece na Síria, compra terrenos, funda empresas. E os mulás de Teerã ficam felizes de, com a ajuda de Deus, poder agora ameaçar o odiado Israel de forma muito mais efetiva, diretamente a partir das Colinas de Golan.

Além disso soa como puro escárnio serem justamente esses mulás, os campeões da repressão, a acusarem Ancara de violar os direitos humanos. O que não significa que o governo turco – operador de uma brutal máquina de opressão em seu próprio país – não o esteja fazendo.

A Síria é palco de uma guerra total, que perdeu o rumo. E que também não a encontrará sua direção por o presidente da França, Emmanuel Macron, anunciar agora que mobilizará suas Forças Armadas se o regime Assad voltar a empregar gás tóxico num ataque.

Para Macron, isso seria lucro, permitindo-lhe se glorificar na pose humanitária que tanto gosta de adotar – uma humanidade que há muito não tem dado mostras de poder contribuir em nada para o fim da guerra. Será que Macron realmente pretende enviar os aviões franceses contra os russos?

A União Europeia não tem superioridade militar na Síria. E a França – depois da intervenção na Líbia, incitada pelo filósofo oficial Bernard-Henri Lévy, e suas fatais consequências – tem todo motivo para refletir três vezes antes de agir. Senão o país se arrisca a descambar para o joguinho tático que os protagonistas da guerra há tanto tempo praticam na Síria. E cujas vítimas são os que tiveram o azar de nascer lá – atualmente em Afrin e, mais ainda, em Ghouta Oriental.

Em retrospectiva, é preciso dizer: foi tudo, menos sensato, que a aliança internacional, sem legitimação dos demais países, tenha iniciado o combate à quadrilha assassina do "Estado Islâmico" no segundo semestre de 2014. Ela cometeu o pecado original do qual resultaram todos os pecados posteriores. A partir daquele momento, a aliança perdeu toda a credibilidade: intervencionistas que condenam intervencionistas têm pouca chance de serem levados a sério.

No melhor dos casos, também a guerra tem suas – tenebrosas – leis. Se as perde, como há muito é o caso na Síria, aí ela se transforma em carnificina arbitrária, praticada por campeões do cinismo, que não conhecem mais nenhum objetivo – pelo menos nenhum que seja honroso.

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