Venezuela já planeja segunda moeda virtual

Mischa Ehrhardt

  • Federico Parra/ AFP

    O presidente venezuelano Nicolás Maduro gesticula durante evento de lançamento da criptomoeda Petro, em Caracas, Venezuela

    O presidente venezuelano Nicolás Maduro gesticula durante evento de lançamento da criptomoeda Petro, em Caracas, Venezuela

Poucos dias após o lançamento do petro, fixado em relação ao barril de petróleo, governo Nicolás Maduro anuncia planos de introduzir nova criptomoeda, cujo valor seria garantido pelo ouro.

Nesta semana, os entusiastas de moedas digitais chegaram mais perto do "ouro negro": a Venezuela cumpriu a promessa que fez em dezembro último e lançou a sua própria criptomoeda, o petro, cujo valor é fixado em relação a um barril de petróleo.

Em outras palavras: se o dinheiro perde em confiança e valor, resta ao proprietário do petro, ao menos teoricamente, o direito a um barril de petróleo. No entanto, ainda não está claro como isso deve funcionar na realidade.

De qualquer forma, o próximo passo já foi anunciado: depois do petro para o petróleo, planeja-se uma moeda digital fixada em relação ao ouro – o petro-ouro, como antecipou o presidente Nicolás Maduro.

Para o petro, a Venezuela reservou um campo de petróleo na região do Orinoco, que deve assegurar até 100 milhões de tokens, unidades da moeda virtual. Esse é o total que se planeja emitir da criptomoeda.

Inicialmente, serão vendidos 38 milhões de tokens do petro, posteriormente, outras 44 milhões. O restante ficará com o Estado. O início da pré-venda foi um sucesso, anunciou Maduro: nas primeiras 20 horas, intenções de compra no montante de US$ 735 milhões foram registradas. Isso, no entanto, ainda não pôde ser verificado.

O preço inicial do token da criptomoeda foi fixado em US$ 60 por unidade – o que reflete o preço do barril de petróleo em meados de janeiro. "Acho que essa é uma abordagem interessante", comenta Philipp Sandner, da Escola de Finanças e Gestão de Frankfurt.

Sandner é especialista em moedas digitais e tecnologia blockchain – uma espécie de livro contável que armazena o envio e recebimento de valores a partir de transações com moedas virtuais. Para ele, junto à introdução da criptomoeda venezuelana, está a esperança de que, dentro do sistema monetário virtual, haja moedas que sejam mais estáveis que, por exemplo, o bitcoin.

Luta contra a hiperinflação

As demais moedas digitais não têm cobertura. O seu valor é determinado apenas pela confiança nas criptomoedas. Se essa certeza aumenta, cresce também a sua valorização, se ela diminui, o seu curso despenca. Como resultado, os mercados de divisas digitais experimentam fortes variações de preços.

Aparentemente, o polêmico presidente venezuelano está tentando tirar proveito do atual momento – ou seja, o hype em torno de bitcoin e outras moedas virtuais – para tentar sair do sufoco político e econômico: a inflação gira em torno de 4.000% ao ano.

"O petro fortalece a nossa independência e a nossa soberania econômica", diz Maduro, num recado a outros países, especialmente aos EUA, que impuseram sanções econômicas à Venezuela.

Com as moedas virtuais, o governo em Caracas quer restabelecer a sua ligação com os mercados internacionais de capitais. Pois, se a venda do petro for realmente bem-sucedida, o país voltaria a receber, direta ou indiretamente, divisas fortes.

Já há vários anos, se desencadeia uma amarga luta de poder entre o governo Maduro e a oposição. Embates às vezes sangrentos mergulharam a Venezuela numa profunda crise política e econômica. A oposição acusa o presidente de querer calar os críticos e transformar o país numa ditadura. Maduro denuncia que os líderes da oposição estão tentando planejar um golpe de Estado com a ajuda americana.

Os Estados Unidos já advertiram que os cidadãos americanos não podem comprar o petro. Já que, assim, ignorariam as sanções, praticando, portanto, algo ilegal. O Departamento de Finanças em Washington considera a compra de petro como um empréstimo ao governo venezuelano.

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