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Sarkozy acuado por escândalo de financiamento ilícito

Catherine Martens

21/03/2018 18h52

Que seus políticos recebem dinheiro de fontes duvidosas não é novidade para os franceses. Mas fato de o ex-presidente ter se envolvido com ex-ditador da Líbia durante campanha pode exceder a tolerância dos eleitores.Trata-se de muito dinheiro: o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy supostamente teria recebido 50 milhões de euros para sua vitoriosa campanha eleitoral de 2007 enviados pelo ex-ditador líbio Muammar Kadafi.

Sarkozy foi indiciado nesta quarta-feira (21/03) sob a acusação de corrupção passiva, financiamento ilegal de campanha eleitoral e receptação de dinheiro líbio. Mas, até agora, o caso não foi suficiente para gerar clamor popular na França.

"Não há lugar para moral na política francesa", aponta o cientista político Jérôme Sainte-Maire. A reivindicação por atitudes exemplares de políticos é tradicionalmente limitada na França.

"Sarkozy não é, de maneira nenhuma, o primeiro a conseguir seu dinheiro de maneira pouco ortodoxa. Justamente nas eleições presidenciais, o dinheiro flui", afirmou o cientista político do think tank parisiense PollingVox em entrevista à DW.

O Judiciário francês, por outro lado, combate essa conduta negligente desde o início da década de 1990. Desde a promulgação da chamada lei Rocard – legislação que leva o nome do ex-primeiro-ministro Michel Rocard –, os fundos de campanha e o financiamento de partidos têm de ser divulgados. Em caso de fluxo de grandes valores não autorizados, a lei francesa permite o anulamento da eleição de um prefeito por até um ano.

Isso funciona a nível local. O político socialista Jack Lang, por exemplo, teve que renunciar ao cargo de prefeito de Paris devido Üa legislação. O problema, de acordo com Pascal Perrineau, cientista político do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), é que essa prática é politicamente inaplicável a nível nacional.

Política e negócios

Desde a constituição da Quinta República, em 1958, o financiamento não transparente e a apropriação indébita de fundos públicos têm sido um fio condutor ao longo da história, segundo o especialista Sainte-Marie. E isso se estende desde os conservadores de direita até os comunistas.

"O que conta é a disputa política. E se os franceses se sentirem representados, eles estão prontos para concessões", explicou.

Por exemplo, diz-se que o general Charles de Gaulle, fundador da Quinta República e um dos mais importantes políticos franceses do Século 20, contabilizou perturbadoramente cada selo usado para fins privados e os pagou do próprio bolso – exemplar. No entanto, também era um segredo aberto que os gaullistas se beneficiaram do apoio financeiro dos Estados do Magrebe.



Isso nunca incomodou. Afinal, De Gaulle era um símbolo da chamada Résistance, conjunto de movimentos que, durante a Segunda Guerra Mundial, proclamou de Londres a "França livre".

Além disso, o fato de o primeiro presidente da Quinta República ter recebido para seu partido, RPR, uma notável quantidade de dinheiro da estatal petrolífera Elf sempre foi aceito. E o relacionamento com a empresa, repetidamente descrito como incestuoso, foi mantido pelo presidente socialista François Mitterand.

Ele garantiu que a Elf ajudasse financeiramente todos os partidos franceses. E isso não acabou com sua carreira política. Muito pelo contrário, Mitterand serviu como figura de identificação socialista de uma geração.

Até mesmo o conservador Jacques Chirac esteve envolvido diversas vezes em acusações de apropriação indébita de fundos públicos quando era presidente. E ele não caiu em desgraça com seus eleitores.

"Moral não é referência"

"É o propósito político que importa, não se o político é uma pessoa moralmente correta", diz Sainte-Marie. Casos financeiros só se tornam armadilhas políticas quando amigos do partido querem derrubar adversários, de acordo com Perrineau, da Sciences Po.

O recente exemplo do fracassado candidato presidencial François Fillon mostra que informações interceptadas pelas autoridades podem acabar rapidamente com carreiras políticas. E nesse caso, eram valores muito menores do que os especulados em relação a Sarkozy. Mesmo assim, Fillon teve que abandonar a disputa.

A renúncia nunca foi cogitada por Sarkozy. Seus amigos influentes e financeiramente poderosos eram e são seu ás na manga. Sarkozy nunca fez mistério sobre sua proximidade com a plutocracia francesa, como com os industriais Vincent Bolloré e Martin Bugyues, os magnatas da construção e das telecomunicações ou com a bilionária e herdeira da marca de cosméticos Loréal, Liliane Bettencourt. Os franceses aceitam.

Segundo Sainte-Marie, duas coisas distinguem Sarkozy de seus predecessores. Por um lado, o estilo óbvio de se mostrar ao lado dos poderosos. Para os franceses, isso somente gerou uma má imagem. "Isso lhe dá a reputação de um presidente bling-bling, mas não há perdas sérias em meio aos seus apoiadores", analisou Sainte-Marie.

Mais grave foi sua política na Líbia. Sua intervenção no país africano não é perdoada por muitos franceses até hoje. "Enquanto um presidente não atingir um nervo com sua política, ninguém perguntará de onde vem o dinheiro", afirmou Sainte-Marie.

Ao mesmo tempo, muitos franceses atribuem a Sarkozy uma série de decisões políticas erradas. Sob essa ótica, de acordo com a análise de Sainte-Marie, pode ser que o caso de doações de Sarkozy ainda tenha o potencial para se tornar um verdadeiro escândalo político.

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