Os pontos de divergência entre Merkel e Trump

Jefferson Chase (rk)

Chanceler alemã faz ofensiva para tentar fazer presidente americano mudar de ideia em várias frentes. Divergências vão desde tarifas e balança comercial até acordo nuclear com o Irã e despesas com defesa.Em missão delicada e num momento tenso das relações entre Estados Unidos e Alemanha, a chanceler federal Angela Merkel viajou para Washington nesta quinta-feira (26/04) para um encontro com o presidente americano, Donald Trump.

O encontro, nesta sexta-feira, acontece poucos dias antes do fim do período de isenção das tarifas americanas de importação de aço e alumínio, válido para países europeus até 1° de maio. Merkel quer convencer Trump a pelo menos adiar o fim do prazo para a Alemanha.

O encontro de Merkel com Trump também ocorrerá poucos dias depois da passagem do presidente da França, Emmanuel Macron, por Washington.

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Além da ameaça de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a Europa, outros temas do encontro desta sexta deverão ser a guerra civil na Síria e o acordo nuclear com o Irã, assim como as críticas do governo Trump ao projeto do gasoduto Nordstream 2, no Mar Báltico, de que a Alemanha se tornará muito dependente do gás russo.

Esta é a segunda visita que Merkel faz a Trump desde que este assumiu a Casa Branca, em janeiro de 2017. Apesar de Berlim declarar que a chanceler quer aprofundar as "excelentes" relações econômicas entre os dois países, vários assuntos da agenda internacional opõem os dois líderes políticos. Entenda quais são:

O acordo nuclear com o Irã

A Alemanha apoia firmemente o JCPOA, sigla em inglês para Plano Integral de Ação Conjunta, nome oficial do acordo nuclear firmado em 2015 entre o Irã, a Alemanha e as cinco potências do Conselho de Segurança (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China). No pacto, Teerã prometeu restringir seu programa nuclear e não desenvolver armas nucleares. Em troca, haveria um relaxamento das sanções das Nações Unidas, da União Europeia (UE) e dos Estados Unidos.

Já Trump chamou o JCPOA de "pior acordo de todos os tempos" e acusou o governo iraniano de não cumpri-lo. Em outubro, o presidente americano se recusou a certificar que o Irã está respeitando o acordo – um atestado requerido a cada 120 dias –, mas não chegou a rompê-lo.

Porém, ele ameaçou voltar a impor sanções secundárias a países que fazem negócios com o Irã – o que, basicamente, afundaria o acordo. A Alemanha e seus parceiros europeus gostariam de evitar esse cenário.

Desequilíbrios comerciais e tarifas

Trump acusa a UE – e a Alemanha, em particular – de uma relação econômica injusta com os EUA. Como prova dessa suposta desigualdade, ele cita o déficit comercial de 50 bilhões de dólares com a Alemanha. A indústria automobilística alemã é um dos alvos favoritos dos ataques do presidente americano.

Trump também ameaçou impor tarifas a importações europeias de aço e alumínio, que podem entrar em vigor em 1° de maio, quando se encerra um período temporário de exceção aos europeus. A Comissão Europeia avalia que a exceção será mantida por mais algum tempo, mas o governo da Alemanha não conta com isso.

O protecionismo econômico de Trump também acarretou o fim das negociações para um tratado de livre comércio entre os EUA e a UE, conhecido pela sigla em inglês TTIP.

A Alemanha apoia o livre comércio global e gostaria de ver o retorno do TTIP, que a Comissão Europeia diz que impulsionaria a economia do bloco em 120 bilhões de euros e a dos Estados Unidos em 90 bilhões de euros.

A Alemanha argumenta que as tarifas europeias sobre a totalidade dos produtos americanos que entram no bloco são, em média, ligeiramente mais baixas que as tarifas americanas sobre os produtos europeus. A Alemanha também indicou disposição para renegociar acordos tarifários – o último deles foi fechado em 1994. Mas, se Trump iniciar uma guerra comercial, Berlim ameaçou responder na mesma moeda, defendendo a proposta de a UE taxar produtos americanos como motocicletas, calças jeans e uísque.

Gastos com defesa

Trump acusa a Alemanha de gastar muito pouco com defesa – ou seja, de tirar proveito dos investimentos feitos por outros países da Otan, como os EUA. O presidente americano quer que Berlim se comprometa a gastar 2% do PIB no setor, alinhando-se a um objetivo estabelecido pela Otan em 2014.

Atualmente, a Alemanha gasta cerca de 1,2% do seu PIB (mais ou menos 37 bilhões de euros) com defesa. O atual acordo de coalizão estabelece um leve aumento desses gastos, mas nada perto dos 2% exigidos por Trump. Berlim argumenta que os montantes relativamente altos que investe em ajuda ao desenvolvimento (23,3 bilhões de euros em 2016) ajudam a evitar conflitos ao redor do mundo e deveriam ser levados em conta como contribuição à segurança internacional.

Meio ambiente

A Alemanha é um dos maiores defensores do Acordo de Paris para reduzir as emissões de gases poluentes e combater o aquecimento global – apesar de Berlim ja admitir que não conseguirá cumprir suas próprias metas climáticas até 2020.

Trump anunciou que os Estados Unidos vão deixar o acordo em novembro de 2020, a primeira data possível para essa retirada. Apesar de o presidente americano sinalizar, mais tarde, que pode reconsiderar essa decisão, a Alemanha parece trabalhar com a possibilidade de que isso nunca acontecerá.

Imigrantes e refugiados

Em nenhum outro tema, o contraste entre Merkel e Trump é tão grande quanto no tema imigrantes e refugiados. Enquanto o presidente prometeu construir um muro entre os Estados Unidos e o México para impedir a entrada de imigrantes ilegais, a chanceler adotou uma política de boas-vindas na crise de refugiados de 2015.

Pouco depois de sua vitória nas urnas, Trump disse ao diário alemão Bild que Merkel tinha cometido "um erro catastrófico ao deixar todos aqueles ilegais entrarem no país". Já Merkel afirmou que um muro na fronteira sul dos Estados Unidos não resolverá o problema da imigração ilegal.

O gasoduto no Mar Báltico

Trump fez críticas pesadas aos planos de Berlim para um segundo gasoduto no Mar Báltico, ligando a Rússia à Alemanha. Segundo o presidente americano, isso aumentaria a dependência alemã do Kremlin. Ele disse que a Alemanha acabaria pagando "bilhões de dólares" para a Rússia. E acrescentou: "Isso não está certo".

Países-membros da UE no Leste Europeu partilham das críticas americanas em relação ao gasoduto, enquanto a Alemanha desconfia que os EUA querem exportar mais gás natural liquefeito para a Europa.

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