Autoritarismo e provocação: O que esperar do quarto mandato de Putin como presidente?

Roman Goncharenko

  • Alexander Zemlianichenko/Reuters

Após esmagadora vitória eleitoral, político assume mais uma vez a presidência da Rússia. Especialistas preveem manutenção de curso autoritário e um difícil pôquer de provocação e dependência com o Ocidente

A cerimônia desta segunda-feira (07) em Moscou foi semelhante às outras três realizadas nas últimas duas décadas: num salão do Kremlin decorado em ouro, uma porta se abriu, e Vladimir Putin caminhou pelo tapete. O evento foi a quarta posse do presidente desde 2000. Aos 65 anos, ele parece ter atingido o ápice de seu poder: na eleição de 18 de março, alcançou seu melhor resultado, com 77% dos votos.

"Isso não só significa o endosso de Vladimir Putin como autoridade e presidente russo, mas ele também o interpretará como respaldo a suas políticas", comenta Gernot Erler, ex-encarregado do governo alemão para as relações com a Rússia. Segundo o social-democrata, o quarto mandato de Putin terá como característica principal a continuidade.

Nos últimos anos, ficou perfeitamente claro o que o regime autoritário de Putin representou para a política doméstica: restrições à liberdade de reunião, intimidação da sociedade civil, maior controle da internet e redes sociais, e até algumas tentativas de bloqueio, como no caso do serviço de mensagens Telegram.

"Temo que a destruição do campo de ação democrática vá continuar", antecipa Martin Schulze Wessel, professor de história do Leste Europeu na Universidade Ludwig Maximilian, em Munique. Além disso, ele acredita que a luta contra a corrupção não terá sucesso.

Segundo Manfred Hildermeier, docente aposentado da Universidade de Göttingen, "o sistema se tornará crescentemente autoritário, sem chegar no limite da ditadura declarada". "Para Putin, isso não é necessário, ele quer exibir uma cortina de fumaça democrática para o mundo", afirma.

Levante improvável

Um levante contra Putin – como nas ex-repúblicas soviéticas Geórgia e Ucrânia e, atualmente, na Armênia – é improvável na Rússia atual, concordam os especialistas. "Nas eleições, a oposição mostrou como teve dificuldade para colocar um candidato em campo", aponta Erler.

Na eleição presidencial, dois concorrentes, Grigory  Yavlinsky e Ksenia  Sobchak, se posicionaram como representantes da oposição liberal. O líder oposicionista Alexei  Navalny, que foi proibido de concorrer, convocou um boicote do pleito.

No entanto, era difícil fazer previsões, pois os cidadãos poderiam ser rapidamente mobilizados via internet, diz Hildermeier. Segundo o professor, o avanço econômico do país é o que determinará se ocorrerão ou não protestos na Rússia.

Economia é a chave

Até o momento, Putin tem tido sucesso em estabilizar a economia nacional após a recessão de 2014, desencadeada, em primeiro lugar, pela queda dos preços do petróleo e, em parte, pelas sanções ocidentais em seguida à anexação da Crimeia. Essa estabilidade, contudo, está ameaçada pelas recentes sanções dos Estados Unidos, bem mais rigorosas.

Nos próximos, anos, a conjuntura econômica russa enfrentará mais dificuldades, prediz Stefan  Meister, do think  tank Sociedade Alemã para Política Externa (DGAP)."Haverá menos financiamento para pensões, previdência social, mesmo para os militares", diz o especialista, em cuja opinião a política doméstica desempenhará, portanto, um papel cada vez mais importante no quarto mandato de Putin.

Em seu discurso sobre o estado da nação em 1º de março, o presidente prometeu ao país um grande avanço tecnológico. Hildermeier vê tal promessa com ceticismo: "Putin não alcançará isso. Seu calcanhar de Aquiles é a economia, assim como a competitividade econômica em nível internacional."

A Rússia continua dependendo da exportação de matérias-primas em grande escala. Além disso, do ponto de vista histórico, o país "quase sempre só conseguiu fechar a lacuna tecnológica relativa à Europa em cooperação com o Ocidente", algo que não deve ocorrer agora. É provável que se mantenha o estranhamento entre a Rússia e o Ocidente, iniciado pela "política exterior agressiva" de Moscou.

Dependência em relação ao Ocidente

Erler enfatiza que "a Rússia tem enorme autoconfiança e se vê como potência pacificadora em qualquer futuro mundo multipolar". A tentativa de estabelecer o país como potência mundial continuará, concorda Meister, do DGAP.

No processo, Moscou está se beneficiando da "inação dos Estados Unidos e da União Europeia", por exemplo na Síria, e, devido a suas próprias manobras táticas, evoluindo para se tornar um importante player no Oriente Médio.

Todos os especialistas consultados pela DW concordam que a Rússia prosseguirá com sua política de alienação em relação ao Ocidente. A chave de uma reaproximação seria solucionar a crise da Ucrânia, mas até o momento Moscou não mostrou disposição a um acordo.

No entanto, a segregação total em relação ao Ocidente não funcionaria, afirma Schulze Wessel. O intercâmbio de informações está "estreito demais", e há a oportunidade de viajar para o Ocidente. A alternativa, que seria estabelecer laços mais estreitos com a China, não é "tão atraente", pois nesse caso Moscou teria que se contentar com o papel de sócio secundário de Pequim.

Putin para sempre?

Um dos aspectos mais intrigantes da quarta presidência de Vladimir Putin é se ela será sua última. A Constituição russa estipula que o presidente só pode cumprir dois mandatos consecutivos. Antes, Putin respeitou essa regra, assumindo o cargo de primeiro-ministro de 2008 a 2012, e só retornando ao Kremlin depois de trocar de posto com o então presidente Dmitri Medvedev.

Agora, Putin estará diante de outra escolha: afastar-se ou reformar a Constituição. Hildermeier aposta na primeira opção. "Minha suposição é que haverá uma troca de liderança", afirma. Após o mandato de seis anos recém-iniciado, "um membro leal da elite política dominante" poderá concorrer à presidência em 2024, prevê.

Após ser eleito em março, o próprio Putin declarou que uma reforma constitucional "ainda" não estava em sua agenda. Numa declaração anterior, ele assegurara que não pretendia ser "presidente para sempre". Entretanto é possível que venha a ser fortemente pressionado a se manter no poder.

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