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Opinião: Não faz mais diferença o que Trump pensa de Putin

Konstantin Eggert

21/08/2018 12h38

A submissão do americano em relação ao presidente russo entravava as ações de Washington. Mas agora a política para a Rússia está totalmente nas mãos do Congresso. E as sanções se farão sentir, opina Konstantin Eggert.Preparar-se para receber sanções se tornou uma espécie de rotina para a liderança russa. Até o fim de agosto, espera-se que os Estados Unidos vão impor um novo pacote de restrições à Rússia. Desta vez, não é por causa das ações de Moscou na Ucrânia, nem pela suposta interferência nas eleições presidenciais americanas.

Washington está aplicando o Decreto de Controle e Eliminação de Emprego de Armas Químicas e Biológicas de 1991 para punir o Kremlin por ter envenenado o ex-oficial do Departamento Central de Inteligência russo (GRU), tornado agente do serviço secreto britânico MI6, Sergei Skripal e sua filha Yulia na cidade de Salisbury, Inglaterra, em março de 2018.

Essa lei só foi aplicada duas vezes antes: contra a Síria e a Coreia do Norte. A partir desta quarta-feira (22/08), entre outras medidas, os EUA proíbem a venda à Rússia de toda tecnologia de uso dual, ou seja, que possa ser empregada tanto para fins civis quanto militares.

Exige-se dos russos a promessa de não participarem de ataques químicos e que permitam o acesso de inspetores das Nações Unidas a instalações onde possam estar sendo produzidas agentes químicos ou biológicos. Caso Moscou não acate essas condições, uma nova rodada de sanções virá dentro de 90 dias. Ela pode incluir mais restrições comerciais, rebaixamento das relações diplomáticas, por exemplo, com a retirada do embaixador americano, e, em último caso (embora improvável), até mesmo a proibição de voos da companhia estatal russa Aeroflot para os EUA.

O Kremlin nega terminantemente qualquer conexão com o atentado a Skripal. Ninguém espera que ele obedeça às exigências americanas, embora a Convenção de Armas Químicas, da qual a Rússia é signatária, comprometa à permissão de acesso a inspetores internacionais. Portanto em novembro é bem provável que Washington vá impor a segunda rodada de sanções contra Moscou.

Nesse ínterim, contudo, outra série de restrições, bem mais prejudiciais, poderá atingir a Rússia. Em setembro o Senado dos EUA começa a debater um projeto de lei bipartidário com o fim de punir a interferência russa nas eleições americanas de 2016. Essa lei seria seguida da proibição de transações com títulos de dívida pública russos e talvez até mesmo de transações em dólar com bancos estatais do país.

A proposta do senador democrata Bob Menendez para que se designe oficialmente a Rússia como "financiadora estatal de terrorismo", com base no caso Skripal, provavelmente não será ancorada em lei. Mas o envenenamento compromete ainda mais a já manchada imagem internacional de Moscou.

É o que já ocorrera na derrubada do avião de passageiros da Malaysian Airlines no leste da Ucrânia, em 2014. A investigação internacional sobre a queda do voo MH17 prossegue, já tendo determinado que um míssil antiaéreo fornecido (e talvez operado) por russos abateu a aeronave, possivelmente confundindo-a com um avião militar de transporte ucraniano.

Foram mortos 298 passageiros e tripulantes. Quatro anos de campanha de acobertamento e desinformação por parte da oficialidade moscovita só ajudaram a convencer grande parte da opinião pública de que a Rússia foi, de fato, a culpada. Uma reputação dessas facilita psicologicamente a imposição de sanções adicionais.

Por fim, o Wall Street Journal noticia que os EUA se preparam para debilitar, senão desmantelar inteiramente, o projeto Nord Stream 2, de um gasoduto entre Rússia, Alemanha e outros países-membros da União Europeia. Washington planeja sancionar as companhias que participam do consórcio, inclusive a alemã Wintershall, e talvez até bancos que financiem a construção. Essas são perspectivas realmente muito sombrias para o Kremlin.

As alegações russas de que as sanções não têm efeito sobre a economia nacional foram mais uma vez desmentidas em 9 de agosto, quando a cotação do rublo despencou, depois que o jornal Kommersant publicou um esboço da nova lei de sanções do Senado americano. Medidas governamentais recentes, como elevar drasticamente a idade de aposentadoria e aumentar o IVA de 18% para 20% provam que o dinheiro está ficando cada vez mais escarço na Rússia.

Apesar de tudo, o consenso em Moscou é que Vladimir Putin não recuará em nenhum dos tópicos de conflito para aliviar o regime de sanções. Em sua visão, isso demonstraria "fraqueza" – coisa que ele abomina mais do que tudo.

Esse medo é a emoção dominante entre os oligarcas e burocratas de alto escalão da Rússia. Sua apreensão mais do que real com os efeitos das sanções ocidentais sobre a economia russa e sobre seus bens pessoais é colocada em cheque pela necessidade de mostrar constantemente lealdade ao Kremlin e de condenar publicamente o Ocidente, a fim de também não serem vistos como "fracos".

Como Putin poderia reagir? A primeira ideia que vem à mente é a suspensão das vendas dos motores de foguetes RD-180 para o programa espacial americano. Mas isso atingirá a indústria aeroespacial russa tanto quanto – se não mais do que – a americana, privando-a de importante fluxo de capital.

Moscou sem dúvida banirá as aeronaves civis americanas de seu espaço aéreo, caso a Aeroflot não possa mais voar para os EUA. O governo russo pode, ainda, sustar as importações de bourbon e vinho da Califórnia, assim como fechar os dois últimos consulados americanos, em Vladivostok e Ecaterimburgo. Isso acarretaria o fechamento das duas representações consulares russas que restam nos EUA: em Houston e Nova York.

E isso é mais ou menos tudo. Um arsenal bastante limitado, comparado com aquele que Washington pode mobilizar. Moscou está agora impotente para influenciar a administração americana. A rapidez com que os pronunciamentos pró-Rússia do presidente Donald Trump foram descartados e substituídos por uma nova rodada de sanções, mostrou que agora a política referente ao Kremlin está totalmente nas mãos do Congresso. Ao mesmo tempo, a desconfiança entre os dois países atinge níveis comparáveis aos da crise de mísseis com Cuba.

A liderança russa parece ter perdido sua antes incomparável capacidade de intimidar o Ocidente, forçando-o a apaziguá-la. Ninguém, pelo menos em Washington, parece ter mais medo da imprevisibilidade de Moscou. E, embora o faturamento com petróleo e gás natural ainda proteja o Kremlin de quaisquer revoltas sociais significativas em casa, as sanções e o isolamento político internacional estão pouco a pouco se fazendo sentir.

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