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Igreja exalta perdão em "excepcional" Sexta-Feira Santa de feriado em Cuba

06/04/2012 19h29

Havana, 6 abr (EFE).- A Igreja Católica em Cuba, país historicamente marcado pela resistência a fé religiosa, exaltou o perdão e a reconciliação durante a primeira Sexta-Feira Santa de feriado realizada em décadas na ilha, que, por sua vez, foi marcada pela transmissão ao vivo do discurso do cardeal cubano Jaime Ortega.

O sermão de Ortega, realizado na Catedral de Havana, foi televisionado para todo país por um canal estatal. Segundo pôde constatar a Agência Efe, entre o público presente estavam fiéis da comunidade, turistas e alguns integrantes do grupo dissidente Damas de Branco, incluindo a porta-voz Berta Soler.

Por mais de uma hora, os cubanos puderam ver e escutar as palavras do Arcebispo de Havana, que fez questão de ressaltar o valor do perdão como parte do legado de Jesus.

"Sem perdão não podemos ter relações interpessoais sãs, como vida familiar, convivência social, reconciliação entre grupos e entre os povos entre si. Mas, quanto nos custa perdoar?", indagou Ortega, que seguia a mesma linha de "reconciliação entre cubanos" adotada pela Igreja nos últimos meses.

Em declarações aos jornalistas, Berta Soler, porta-voz das Damas de Branco, destacou o fato de uma representante do grupo ter conseguido acompanhar a missa na catedral mesmo sendo "fustigadas e reprimidas" pelo governo para que não participem das missas dominicais e dos atos nas ruas da ilha.

"Estamos aqui para pedir a Deus que nos ilumine e que nos proteja (...) Vamos continuar esta luta pacífica pela liberdade de nossos seres queridos e, principalmente, por uma nova Cuba. Temos que respeitar os direitos humanos em nosso país", apontou Berta.

Esta foi a primeira sexta-feira da Semana Santa celebrada como um dia de feriado em Cuba desde o início da década de 60, quando a revolução de 1959, liderada por Fidel Castro, eliminou essa data do calendário.

A decisão do Conselho de Ministros de retomar essa data foi anunciada três dias depois que o papa Bento XVI finalizasse sua visita a Cuba, onde o pontífice pediu ao presidente Raúl Castro a restituição desse feriado religioso.

Após o pedido do papa, o governo cubano declarou que o dia 6 de abril seria uma data de "recesso laboral" com "caráter excepcional". No entanto, as autoridades encaminharam a determinação definitiva sobre o tema "aos órgãos superiores da Nação".

Várias pessoas consultadas pela Agência Efe nesta sexta em Havana concordaram que a medida deveria ser mantida de forma definitiva em Cuba, já que se trata de um sinal de "respeito" e "civilidade".

"Embora nossa cultura religiosa católica não esteja tão enraizada, acho que devemos respeitar este dia porque é a forma de demonstrar que respeitamos a essa religião e seus seguidores", afirmou Annia González, uma estudante de 22 anos, que não pratica o catolicismo.

Miguel Valverde, de 79 anos, disse à agência Efe que a decisão do Governo de eliminar o feriado do calendário "foi um grande erro porque o povo cubano é religioso".

"O fato desta Sexta-Feira Santa ter sido celebrada como um feriado foi, sem nenhuma dúvida, uma grande conquista para nossa sociedade. Devemos manter isso para sempre", advertiu Aracelis Micó, uma católica de 75 anos que foi educada pelas freiras salesianas.

Segundo dados do Vaticano, os católicos em Cuba representam o 60,19% da população, aproximadamente 6,76 milhões de fiéis. No entanto, a Igreja em Cuba estima que apenas 1% da população compareça regularmente a missa.