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Índia se questiona se caso de estupro levará a aumento da proteção da mulher

14/01/2013 06h16

Igor G. Barbero.

Nova Délhi, 14 jan (EFE).- A morte de uma jovem após ser violentada em um ônibus indignou a Índia, onde muitos se perguntam se o crime pode levar realmente a uma mudança positiva em uma sociedade em que a mulher é muito vulnerável.

O gigante asiático pode se orgulhar de ter sido uma das primeiras nações a ter uma primeira-ministra (Indira Gandhi), e de que hoje, por exemplo, sua capital e duas de suas regiões mais importantes - Bengala e Tamil Nadu - sejam governadas por mulheres.

Também são as mulheres que governam a principal força da coalizão governamental e a Câmara dos Deputados, e muitos altos cargos em áreas como a acadêmica, as artes e a Justiça são ocupados por mulheres, que disputam palmo a palmo com os homens.

O país tem, no entanto, muito a lamentar em assuntos como as mil mortes anuais em crimes de honra, o ostracismo das viúvas, os frequentes abortos de meninas e a baixa integração da mulher no mundo do trabalho por causa de seu obrigatório papel familiar.

A paulatina migração de população das zonas rurais para as cidades emergentes está levando a uma abertura, embora as mudanças sejam lentas em um país de arraigadas tradições sociais, culturais e religiosas.

Os estupros são a ponta do iceberg da discriminação que a mulher sofre no gigante asiático e a falta de dados confiáveis em um país de 1,21 bilhão de habitantes torna difícil saber sua verdadeira incidência.

A realidade é que as agressões sexuais geram muita comoção, especialmente entre a classe média-alta urbana, e o caso do estupro coletivo e tortura desencadeou protestos inesperados.

Mas para onde esse clamor popular está levando a Índia?

"A resposta da sociedade está sendo muito animadora, mas a das instituições públicas foi insuficiente", afirmou à Agência Efe Sonali Khan, da ONG Breakthrough, que luta pela defesa dos direitos das mulheres.

Segundo Sonali, muitos setores da sociedade concordaram em exigir "responsabilizações" pelo crime, pelo qual os cinco homens estão sendo julgados - o sexto envolvido é menor de idade - e poderiam ser punidos com a pena de morte.

Algumas personalidades pediram enforcamento para os acusados e as autoridades, que estudam reduzir a maioridade penal para julgar crimes sexuais, anunciaram maior segurança para as mulheres em espaços públicos como metrôs e ônibus.

"Esperamos que, como resultado do incidente, o governo indiano se mobilize e aprove mais leis de proteção às mulheres", declarou Sonali.

A ativista admitiu que a maior democracia do mundo vive um problema endêmico na aplicação e no cumprimento de suas várias leis e avaliou que, por enquanto, o estupro seguido de tortura despertou basicamente "raiva".

"Acredito que após esta ira inicial o povo ficará mais reflexivo", disse.

O Colégio de Advogados subordinado à corte que julga o caso quis negar o direito de defesa aos acusados, algo impróprio de um Estado de direito.

Além disso, líderes políticos e espirituais radicalizaram seus discursos com declarações que atribuem os estupros à ocidentalização das cidades, à atitude de algumas mulheres liberais e ao atraso das zonas rurais.

"Os políticos fizeram muito barulho... Mas garantirão que seus partidos não tenham candidatos contra os quais há acusações de crimes contra as mulheres?", questionou a renomada escritora Pinki Virani.

Pinki, autora de um livro sobre o incesto que sofreu quando menina, duvida que a indústria do entretenimento deixe a partir de agora de veicular "músicas vulgares" e "anúncios com mulheres vestidas com roupas medievais servindo a seus maridos".

Para muitas mulheres indianas consultadas nas ruas, acabar com os estragos de uma mentalidade patriarcal e machista, frequentemente assumida com resignação pelas próprias mulheres, é uma missão quase impossível.

"Apenas a lei não trará a transformação. É preciso educar para que não haja diferenças entre meninos e meninas", argumentou Lakshmi Ratta.

Lakshmi, que pede "uma punição exemplar" para os acusados, estava com seu marido, que apesar de não ser abordado pelo repórter, assumiu a iniciativa da resposta, uma atitude que os homens repetiram em muitas das entrevistas.