Em plena crise com Taipé, Pequim ressuscita sonhado trem-bala China-Taiwan

Antonio Broto e Francisco Luis Pérez.

Pequim/Taipé, 15 mar (EFE).- Construir um trem de alta velocidade entre China e Taiwan, separadas por mais de 100 quilômetros de mar e 67 anos de embate político, é um sonho antigo de Pequim que o regime comunista decidiu ressuscitar agora, em plena crise com Taipé.

O custoso projeto, que necessitaria um túnel submarino três vezes mais longo que o Eurotúnel, que liga França e Grã-Bretanha através do canal da Mancha, foi incluído pela primeira vez na lista de objetivos oficiais da China, no XIII Plano Quinquenal (2016-2020), debatido nesta semana em Pequim.

O túnel, que com 126 quilômetros seria o mais longo do mundo em uma ferrovia, uniria Pingtan (China) e Hsinchu (Taiwan) e se conectaria com as redes de trens-bala que ambos os territórios já têm em funcionamento.

A ideia, que durante anos foi considerada impossível tecnicamente, começou a ser estudada por especialistas da China em meados dos anos 90, embora o objetivo fosse conectar os territórios mais por estrada do que por trilhos.

Após anos de reuniões entre especialistas, finalmente o projeto se tornou parte do plano quinquenal que governará a política econômica da China nos próximos cinco anos e que será aprovado na próxima semana pelo Legislativo chinês. O que era considerado complicado há 20 anos, hoje já é tecnicamente viável.

"Não há barreiras técnicas para uma linha através do estreito (de Formosa)", afirmou nesta semana Zhang Zhaomin, líder da área de desenvolvimento de Pingtan, em um painel de discussão da Assembleia Nacional Popular, onde é debatido o XIII Plano Quinquenal.

Os problemas tecnológicos não são os maiores obstáculos do projeto, e sim os financeiros, em um momento de contração da economia chinesa (calcula-se que o túnel possa custar US$ 80 bilhões) e de dúvidas políticas, agora que os independentistas retornarão ao governo em Taiwan.

É por isso que do outro lado do estreito de Formosa, onde o Partido Democrata Progressista de Tsai Ing-wen assumirá a presidência em maio, o projeto foi recebido com receio e ceticismo, com a ideia de que não se passa de uma manobra política para resistir à chegada de um governo considerado mais distante da China.

"O plano é totalmente unilateral e não foi comunicado a Taiwan pelos canais estabelecidos. Não passa de uma ideia unilateral e subjetiva da China continental, que nem sequer foi debatida entre as duas partes, muito menos pactuado", lamentou na segunda-feira o ministro dos Transportes e Comunicações taiuanês, Chen Jian-yu.

Na China, até o responsável pela principal associação de promoção das relações entre os territórios, Chen Deming, reconheceu que existe um problema de "vontade política" entre as partes e que é preciso tempo para que o projeto amadureça, apesar de já estar no papel.

O trem Pequim-Taipé não foi apenas anunciado em momentos de crise política, mas também enquanto a China completa as obras de seu trecho Hefei-Fuzhou, que chegará ao litoral mais próximo à "ilha rebelde" taiwanesa.

O projeto colocará a rede de trens chineses, a maior do mundo, com 19 mil quilômetros, mais perto ainda de Taiwan, encerrando um período de décadas nas quais as autoridades chinesas consideraram questão de Estado não construir ferrovias na região.

Nos primeiros anos da República Popular, quando os bombardeios a ambos lados do estreito de Formosa ainda eram frequentes, a China optou por não construir linhas de trem nessa região de conflito por receio de que o exército taiwanês do Kuomintang transformasse os trens em alvos militares.

Os trens-bala se tornaram um instrumento político da China para aumentar sua influência. Prova disso são os incontáveis projetos de ferrovias de alta velocidade com países do sudeste asiático, da Ásia Central e de outras regiões onde tem interesses estratégicos.

O projeto "é claramente um instrumento chinês para forçar a unificação e absorver Taiwan política e economicamente", opinou a diretora do Instituto Asiático da Universidade Tamkang (Taipé), Joyce Lin.

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