Anos após libertação, vítimas de seita de nazista pedófilo seguem "presos"

Júlia Talarn Rabascall.

Villa Baviera (Chile), 8 jul (EFE).- Winfried Hempel ficou atônito em frente ao hospital, completamente paralisado, com o olhar fixo nas portas que se abriam e fechavam automaticamente. Era 1997 e ele, finalmente, conhecia o mundo exterior. Nos 20 primeiros anos de sua vida esteve recluso na Colônia Dignidade, uma das seitas mais obscuras da humanidade.

Winfried cresceu sem pai nem mãe. Sem beijos, carinho, sem sequer um "boa noite". Passou a infância e a juventude com medo, uma dor estranha no estômago, tentando domesticar a tristeza para sobreviver às brutais surras e às selvagens punições a que era submetido.

Seu mundo terminava em uma cerca elétrica de dois metros de altura que cercava os 16 mil hectares da Colônia Dignidade, um inferno no sul do Chile de onde só cinco pessoas conseguiram fugir.

O homem corpulento, de 39 anos e agora advogado, foi um dos 300 alemães reclusos no que as autoridades chilenas definiram como um "Estado dentro de outro Estado", que funcionou de 1961 até 2005.

Seu rosto mostra um desconsolo imensurável. Suas lembranças retratam uma infância gelada e marcada pelo réquiem da eterna chuva do sul. "Colônia Dignidade foi a encarnação do mal, a seita mais perversa da história", afirmou.

Logo após nascer, Winfried foi separado de seus pais e colocado sob a responsabilidade de uma governanta. Nunca conheceu o afeto. Começou a trabalhar 16 horas diárias aos oito anos, de segunda-feira a domingo.

"Quando era pequeno e ninguém me via, me escondia em buracos ou armários vazios. Ficava ali um tempinho. Não sabia por que, mas ficava encantado em fazê-lo. Hoje, me dou conta que esse era o único lugar onde me sentia seguro. Cresci na solidão mais espantosa", revelou.

Os testemunhos das vítimas descrevem um mundo de terror controlado por Paul Schäfer, um psicopata que durante quase 50 anos submeteu crianças, jovens e adultos a castigos e manipulação mental.

Schäfer, um ex-enfermeiro nazista, recrutou fiéis da comunidade batista depois da Segunda Guerra Mundial e emigrou com eles para o sul do Chile. Em 2005, foi detido na Argentina e preso no Chile, onde morreu cinco anos depois.

Desde trabalhos forçados até pedofilia, passando por torturas, sequestros, esterilizações e choques elétricos, os que foram abusados por Schäfer hoje clamam por justiça e lutam contra o silêncio, a impunidade e o esquecimento.

Horst Schaffrick nasceu na Alemanha em 1959. Tinha três anos quando seus pais se mudaram para o Chile para se unir ao "paraíso cristão" da Colônia Dignidade, onde reconstruiriam suas vidas depois da Segunda Guerra Mundial.

Na antiga casa de Schäfer e com lágrimas nos olhos, Horst relembrou as noites nas quais esse homem, que dizia ser um "profeta de Deus", abusava das crianças.

"A cada noite, ele escolhia um ajudante que tinha que dormir com ele. Então, abusava de nós. Eu pensava que isso era normal. Não tinha pais para quem perguntar, nem livros, televisão ou rádio que pudessem me guiar", relatou a vítima.

Tudo era proibido. Olhar para alguém do outro sexo, fazer uma pergunta ou desmaiar de cansaço. A vida era um puro castigo.

O implacável sistema de vigilância transformava os colonos em vítimas e carrascos ao mesmo tempo. Todos tinham obrigação de denunciar qualquer transgressão das normas e eram eles próprios que linchavam os infratores.

Às noites, depois do sermão, Schäfer colocava o infrator denunciado no meio de um semicírculo. O líder da comunidade o interrogava e depois encorajava os demais a insultá-lo e agredi-lo. "Batam forte neste porco! Batam até que ele não aguente mais", gritava.

"Uma vez me bateram muito. Estava no chão, encolhido, sangrando. Perdi a consciência. Quando acordei, tinha a mandíbula fraturada. Tiveram que me costurar o lábio. Me alimentei com um canudo durante um mês", contou Horst, demonstrando um claro sentimento de raiva.

A maior parte das vítimas nunca pensou em fugir ou se defender, mas alguns tentaram escapar. Só cinco conseguiram. Outros, como Jürgen Szurgelies, foram detidos logo depois de pular a cerca.

Depois de conseguir saltar a barreira que ainda cerca o local, Jürgen contou como foi apanhado pelos pastores alemães. Desse dia em diante, começou uma infernal dieta de sedativos e choques elétricos.

"Davam para mim 20 comprimidos por dia. Não conseguia ficar de pé. Era uma múmia. Passou muito tempo, mas continuo sem poder ler ou me concentrar", afirmou Szurgelies.

Onze anos depois da desarticulação da seita, os fantasmas da escravidão e das torturas seguem rondando as vítimas. Hoje, a Colônia Dignidade já não existe, mas a sombra de Schäfer continua atormentando a vida dos ex-colonos. Poucos conseguiram se recuperar. Muitos ainda se sentem presos.

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