Paz entre israelenses e palestinos requer mais mulheres negociadoras

Elías L. Benarroch.

Jerusalém, 25 set (EFE).- Os esforços para resolver o histórico conflito entre israelenses e palestinos padecem de uma ausência crônica de mulheres que possam apresentar uma visão mais ampla e compreensiva às negociações e, com isso, potencializar a possibilidade de um acordo.

Esta é a conclusão à qual chegaram os participantes de um encontro realizado em Jerusalém sobre o papel da mulher na alta política israelense e palestina ou, na realidade, de sua ausência nas instâncias políticas, judiciais e militares que decidem o destino de seus povos.

O encontro, que reuniu mulheres israelenses e palestinas e foi organizado pela ONG pró-conciliação IPCRI, analisou o alcance efetivo em nível local da Resolução 1325 do Conselho do Segurança das Nações Unidas, aprovada por unanimidade em outubro de 2000 e que cobra a adoção de uma perspectiva de gênero para a resolução dos conflitos por todo o mundo.

"Incluir mulheres em processos de paz ou em processos políticos significa resultados melhores e mais sustentáveis: mais mulheres significa mais paz", afirmou a diplomata sueca Alexandra Rydmark ao apresentar os resultados de uma pesquisa acadêmica.

Em 2015, a Suécia adotou a chamada "Política Externa Feminista" para uma aproximação de gênero de todos os assuntos diplomáticos e de Estado e que Rydmark expôs para conscientizar israelenses e palestinas sobre a necessidade de envolver a mulher na resolução de conflitos.

Embora no lado israelense tenham existido personagens à frente da alta política como a primeira-ministra Golda Meir ou a ex-ministra das Relações Exteriores Tzipi Livni, e inclusive a atual ministra da Justiça, Ayelet Shaked, a desigualdade de gênero é notória.

A deputada trabalhista Ksenia Svetlova ressaltou essa disparidade que há em órgãos como o Ministerio das Relações Exteriores ou os relacionados com a segurança de Estado, nos quais a supremacia masculina é histórica, e as decisões sobre paz e guerra quase inapeláveis.

Sobre a possível contribuição para uma reconciliação das mulheres, segundo sua opinião mais resolutiva, Svetlova lembrou uma famosa frase de Margaret Thatcher: "Se você quer que digam algo, peça a um homem. Se você quer que façam algo, peça a uma mulher".

Na história do movimento nacional palestino também houve algumas mulheres destacáveis, entre elas a atual membro do comitê executivo da OLP, Hanan Ashrawi, que participou da Conferência de Paz de Madri de 1991, e a atual prefeita de Belém, Vera Baboun.

Mas, segundo a palestina Nivine Sandouka, codiretora da IPCRI, desde então ocorreu um retrocesso significativo.

"Os Acordos de Oslo (de 1993) marginalizaram os problemas da mulher e as afastou dos fóruns de decisão", disse ela sobre a cada vez menor presença de mulheres nos estamentos políticos palestinos.

Desta forma, dos deputados escolhidos nas eleições de 2006 - as ultimas realizadas -, somente 13% eram mulheres, uma ausência mais notória no partido islamita Hamas do que no Fatah.

"Mas inclusive neste partido (nacionalista) as candidatas eram apresentadas como 'esposa de' ou 'irmã de", queixou-se.

Um recente estudo realizado na Cisjordânia, em Gaza e Jerusalém Oriental revela que entre os embaixadores palestinos apenas 4% são mulheres, entre os juízes somente 11%, e entre os políticos 16%, e neste caso "só até um certo nível (hierárquico)".

Sandouka culpa em primeiro lugar as "tradições" e a "religião", mas também a "ocupação" israelense, porque se uma mulher passar por uma prisão isso criaria "um estigma" social.

Ela prevê que esta ausência continuará na próxima geração, porque "nem as mulheres se apoiam umas às outras", "os partidos políticos são patriarcais" e inclusive "os veículos de imprensa costumam lhes atribuir uma mera função reprodutiva".

"A resolução 1325 é uma ferramenta para legitimar a mulher e fazer com que possa influir no campo da segurança. É uma perspectiva que as legitima ao falar de paz, para inserir a narrativa feminina do conflito", declarou Netta Loevy, coordenadora da ONG que aplica em Israel essa decisão internacional.

O reverendo Gary Mason, que participou do processo de pacificação da Irlanda do Norte, foi mais contundente e afirmou que, se fossem colocados "40 homens em uma sala" de negociações, "o encontro estaria destinado ao desastre".

"Compreensão, habilidade de escutar e maior capacidade de raciocínio... isso é o que as mulheres levam à mesa de negociação", concluiu sobre sua experiência.

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