Nas ruas, palestinos criticam presença de Abbas em funeral de Peres

Ana Cárdenes.

Jerusalém, 30 set (EFE).- Foi negativa nesta sexta-feira a reação de vários palestinos nas ruas sobre a presença de seu presidente, Mahmoud Abbas, no enterro do ex-presidente israelense Shimon Peres, a quem, apesar de sua imagem internacional em prol da paz, muitos palestinos consideravam um inimigo e incentivador das colônias em território ocupado.

"Existe um incômodo infinito. Isto é humilhante. O sentimento geral, entre a maioria dos palestinos, incluindo líderes políticos de seu próprio partido, o Fatah, é de frustração", disse à Agência Efe uma fonte oficial palestina que pediu para não ser identificada.

Segundo a fonte, "os palestinos sempre entenderam quando é necessário estar com os israelenses. (Yasser) Arafat o fazia o tempo todo. Mas Peres é um símbolo da impunidade israelense, e nunca sequer se desculpou pelo que fez. (O ex-primeiro-ministro de Israel Yitzhak) Rabin sim se desculpou, mas ele não".

Por sua vez, Siab, um taxista palestino de 30 anos e natural de Jerusalém, afirmou estar "indignado" que Abbas tenha ido hoje dar o último adeus a Peres, uma viagem para a qual, além disso, teve que solicitar permissão de Israel.

"Se tivesse vindo pedir o estabelecimento de um Estado palestino livre com Jerusalém Oriental como capital entenderíamos, mas homenagear um assassino não é respeitável", disparou.

Segundo a fonte oficial, "Peres é mais rejeitado nas ruas palestinas do que muitos dos políticos da direita, simplesmente por sua hipocrisia", já que "falava de paz no Ocidente enquanto apoiava a expansão das colônias em território palestino".

Thabit Abu al Ros, morador de Ramala de 38 anos, afirmou esperar que, "uma vez morto o criminoso, os crimes acabem".

Também nessa cidade da Cisjordânia, sede do governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP), presidida por Abbas, Ismael Ziad, de 36 anos, disse que "é muito triste que todos os líderes do mundo que pedem democracia e humanidade estejam no funeral do assassino, que ordenou o massacre de 106 pessoas em Qana (sul do Líbano), construiu um reator nuclear, roubou terras e deslocou necessariamente o povo palestino".

Outros mostravam desprezo por meio da indiferença, como Shafika Mansour, uma jornalista de 25 anos que contou não se importar com a morte de Peres, "já que não obteve a paz entre israelenses e palestinos".

Hussam Al Souk, de 24 anos e que vive em Gaza, acredita que "Abbas deve ir para o inferno com Peres ou pedir desculpas a todos os palestinos, especialmente às famílias dos mártires que foram assassinados por ele e outros israelenses".

Para o movimento islamita Hamas, que governa na faixa palestina e há uma década tem conflito com o Fatah, a presença de Abbas no funeral de Peres "é um fato desprezível humilhante e uma desgraça", segundo o porta-voz Fawzi Barhum.

Nas redes sociais, muitos palestinos e apoiadores de sua causa também criticaram Abbas, e inclusive com memes que o ridicularizavam e o acusavam de ser um traidor de seu povo.

"Como podem os palestinos, cuja luta personifica a dignidade, produzir alguém tão abjeto e sem respeito próprio como Mahmoud Abbas?", questionou o cofundador do site "Electronic Intifada", Ali Abunimah.

"Abbas observa solenemente enquanto o próprio Exército israelense continua seus crimes contra seu povo", afirmou ele no Twitter durante a cerimônia, no momento em que soldados israelenses carregavam o caixão de Peres.

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