Semana da Mulher

Detentas brasileiras lutam por auto-estima no Dia da Mulher

Alba Santandreu

Da EFE, em São Paulo

  • Marlene Bergamo/Folha Imagem

    Vista da Penitenciária Feminina de São Paulo

    Vista da Penitenciária Feminina de São Paulo

Na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, escutam-se conversas em vários idiomas. São fragmentos da vida das detentas, muitas estrangeiras, que acabaram atrás das grades na maior cidade do Brasil e que nesta quarta-feira (08) também comemoram o Dia da Mulher.

"Na prisão é mais difícil ser mulher do que homem", conta à Agência Efe Andrea Souza, presa por tráfico de drogas há três anos.

As mulheres - conta - são "mais sensíveis" e sua preocupação com a família é muito maior, sobretudo quando a história se repete e algum dos filhos acaba na prisão, como é o seu caso. "É complicado. Mas nada como um dia após outro", diz.

Andrea passou batom e se maquiou para tirar a foto da carteira de identidade, documento que as detentas podem requerer mesmo na prisão, em uma das atividades propostas para o Dia da Mulher.

Na agenda do dia também há aulas de ioga, de meditação, de dança, exames ginecológicos, cortes de cabelo e depilação, tudo isso com o objetivo de aumentar a motivação e a auto-estima das mulheres.

Uma das salas do presídio, de muros brancos e azuis e algumas cercas de arame farpado, se transformou hoje em um salão de beleza, no qual um grupo de voluntários cortou o cabelo das detentas, como foi o caso de Francielle dos Santos, que decidiu doar sua longa cabeleira.

Francielle, de 22 anos e com uma filha de seis, foi condenada há três anos por uma tentativa de assalto a um banco, mas ainda aguarda outras sentenças. Segundo ela, foi agredida por seu marido durante anos e em uma das surras se defendeu com uma facada.

"Os homens nos agridem, nos tratam mal, nos tratam como lixo. Aqui, muitas companheiras entraram no crime por culpa de seus maridos", diz a jovem.

A mesma visão tem uma das guardas da penitenciária, que afirma que a maioria das mulheres no Brasil está presa por tráfico de drogas. Muitas vezes o fazem pressionadas por seus maridos, mas quando vão presas são imediatamente "abandonadas" pela família.

"Na prisão, a fidelidade é um fenômeno das mulheres", conta a agente penitenciária. As esposas fazem fila durante dias, ano após ano, para visitar seus maridos nos presídios, algo que não é comum no sentido oposto.

Algumas detentas, como Andrea, estão há mais de três anos sem ver a família. Por isso, a primeira coisa que fará quando sair em liberdade será "reconquistar de novo o amor" de seus entes queridos.

Essa carência afetiva aumenta a homossexualidade nas prisões femininas, segundo explicou recentemente à Agência Efe o doutor Drauzio Varella, que há décadas presta atendimento médico em prisões, inclusive no "Carandiru", onde em 1992 ocorreu o maior massacre carcerário do país, que terminou com 111 presos mortos.

Contígua ao antigo "Carandiru", a Penitenciária Feminina da Capital pode ser considerada como uma exceção no mapa carcerário do Brasil, já que tem um programa ativo de emprego e o número de reclusas (667) é levemente superior à sua capacidade (604).

Um terço das detentas deste presídio são estrangeiras. Mônica (nome fictício), de nacionalidade espanhola, foi presa há seis meses por tráfico internacional de drogas em São Paulo e trabalha na prisão para uma empresa provedora de artigos cirúrgicos enquanto espera sua sentença.

Segundo ela, a situação na prisão é muito melhor do que imaginava, e por isso tranquiliza sua família, atemorizada pela sequência de massacres que ocorreram nos últimos meses em várias prisões do país.

"Acompanhei um amigo que me disse que ia transportar dólares. Fui enganada", comenta Mônica, enquanto chora ao lembrar da família.

O mesmo ocorre com Maria (nome fictício), uma colombiana acusada de assalto a mão armada e mãe de dois filhos.

"Atuei mal perante Deus e descumpri um de seus mandamentos. Agora Deus me deu um tempo para refletir e por ele tomarei outros caminhos quando sair daqui", garante.

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