Guerra esquecida no sul da Líbia definirá futuro do país

Mohamad Abdel Kader.

Trípoli, 28 abr (EFE).- Situada no coração do deserto de Sahel, a parte sul da Líbia é, desde a invenção do comércio, um dos principais pontos de trânsito de caravanas entre o norte e o centro da África.

Rica em petróleo, com dunas gigantes e diversos oásis, habitada por duas antigas tribos nômades - Tebu e Tuaregue - vinculadas ao contrabando, desde o início de abril a região é palco de uma batalha essencial que definirá o futuro político da dividida Líbia.

A cidade de Sabha e o trecho que se prolonga para o oeste a partir da mítica "Passagem de Salvador" é terra dos tuareg, uma tribo seminômade berbere também presente em Argélia, Mali e Burkina Fasso.

Envolvida no comércio ilegal, atividade econômica predominante no deserto de Sahel, ela teve uma relação difícil com Muammar Kadafi: alguns clãs entraram em seu exército, enquanto outros se somaram aos grupos opositores e rebeldes.

A ditadura entrou em colapso em 2011. Muitos dos que combateram ao lado de Hamis, um dos filhos do governante, fugiram para o norte do Mali e se uniram aos movimentos islamitas radicais e à revolta da região do Azawad. Fortemente armados, hoje têm ligações com grupos jihadistas internacionais do deserto de Sahel, como a organização Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) e o Grupo para a Vitória do Islã e dos Muçulmanos, recém-criado no norte do Mali e do Níger.

O restante se juntou a diferentes governos de transição em busca de melhorias sociais e econômicas - ainda não conseguidas -, incluindo o que agora é respaldado em Trípoli pelas Nações Unidas, organização com a qual tem uma tensa relação.

"O sul da Líbia é vital para a estabilidade do país, mas infelizmente é uma área cinzenta onde há pouco controle. Sabemos que é uma área de trânsito terrorista onde também agem máfias dedicadas ao contrabando de combustível, de armas e de pessoas. Seu controle é essencial para acabar com esta ameaça e conseguir a segurança que o país precisa", explicou à Agência Efe um dirigente da área de Segurança e Inteligência da União Europeia que opera na região.

A necessidade também é conhecida pelo marechal Khalifa Hafter, homem forte do centro-leste da Líbia, que há um mês lançou uma ambiciosa ofensiva - até agora fracassada - para conquistar o deserto de Sahel e a valorizada região sudoeste.

Nesta semana, dez pessoas morreram em um novo bombardeio do chamado Exército Nacional Líbio (LNA) em uma penitenciária do leste da cidade e em uma base militar, o primeiro muro defensivo.

A área é defendida por milícias locais leais ao governo respaldado pela ONU em Trípoli e por unidades da cidade-estado de Misrata, principal porto comercial da Líbia e inimiga de Hafter.

A região também é essencial para a produção de petróleo e gás no oeste da Líbia através das jazidas controladas por petrolíferas internacionais.

Nos últimos meses, milícias do sul conseguiram interromper a produção, sabotando jazidas e cortando gasodutos, para pressionar o governo em Trípoli, incapaz de controlar esta zona estratégica.

"A conquista do sul reforçaria as intenções de Hafter", que em diversas ocasiões admitiu que seu objetivo é "reunificar" sob seu comando militar todo o país, explicou à Efe uma fonte líbia da área de segurança na capital.

"Não só do ponto de vista político, mas também do econômico. Nessas áreas, o contrabando de armas, pessoas e combustível move milhões de dólares todos os dias. Controlá-las poderia reduzir a imigração irregular", acrescentou.

Analistas militares ocidentais disseram, por sua vez, que o domínio da faixa sul e suas ricas jazidas permitiria, além disso, uma luta com mais efetividade contra o auge do jihadismo na região ao cortar a rota que liga Líbia e Chade, o sul da Argélia e o norte do Níger e do Mali, "território da Al Qaeda".

Ex-membro da cúpula militar que em 1969 levou Kadafi ao poder, Hafter foi recrutado depois pela CIA e, na década de 80, se tornou seu principal opositor no exílio. Apoiado pela Rússia e pela Arábia Saudita, não parou de acumular poder. Apesar de carecer de autoridade política legítima, ele controla cerca de 60% do território e mantém abertas outras duas frentes de guerra, uma em Benghazi, segunda cidade mais importante da Líbia, e outra em Derna, principal fortificação oriental dos grupos salafistas.

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