Principal projeto de Ahmadinejad torna-se alvo de críticas após terremoto

Marina Villén

Teerã, 21 nov (EFE).- As casas de programa social do Irã, o "projeto estrela" do presidente anterior, Mahmoud Ahmadinejad, foram as mais danificadas pelo terremoto que atingiu o país no último domingo, o que motivou críticas dos afetados pelo tremor e inclusive do gabinete do atual governante, Hassan Rohani.

O megaprojeto Maskan Mehr, do ultraconservador Ahmadinejad, nasceu como uma solução para os problemas de habitação das pessoas mais desfavorecidas, mas se transformou em sua própria cova.

"As casas feitas pelo povo permanecem intactas na cidade de Sarpul Zahab, e aquelas erguidas pelo governo estão destruídas", disse Rohani em reunião do governo nesta semana, ao denunciar a "corrupção na construção" desses edifícios.

O primeiro vice-presidente do país, Eshaq Jahangiri, afirmou que a maioria das casas destruídas eram de Maskan Mehr e ordenou que sejam investigadas as razões de tamanha vulnerabilidade diante do terremoto, de magnitude 7,3 na escala Richter e deixou mais de 430 mortos e 10 mil feridos.

O objetivo deste polêmico projeto, idealizado em 2007 por Ahmadinejad, era construir 17 novas cidades e cerca de 1,5 milhão de residências para famílias com poucos recursos que não tinham acesso ao mercado imobiliário pelos altos preços.

Aos construtores foram oferecidos terrenos gratuitos para que construíssem imóveis baratos, enquanto o setor bancário se encarregou de conceder empréstimos de bilhões de dólares com juros mais em conta aos solicitantes.

Esse esquema ruiu quando os construtores perceberam que o projeto não era rentável devido à inflação galopante. A própria população também não demostrou o interesse esperado, já que as casas foram construídas em zonas remotas e sem infraestrutura.

Segundo um construtor e engenheiro experiente de Teerã, que preferiu manter o anonimato, neste projeto em grande escala os materiais utilizados foram de baixa qualidade.

O especialista também disse que não foi realizado um estudo correto para comprovar se o terreno tinha capacidade para suportar edifícios altos. Os requisitos para a escolha do local se basearam principalmente no baixo preço.

O engenheiro acrescentou que o governo pagou o estipulado, mas que houve corrupção e os construtores decidiram reduzir custos contratando mão de obra pouco profissional.

Maskan Mehr não foi concluído durante os oito anos do governo de Ahmadinejad, que ficou no poder de 2005 a 2013. Rohani, apesar de ser contra o projeto, prometeu completar o que foi prometido.

O atual presidente afirmou que Maskan Mehr era um dos maiores obstáculos para a recuperação econômica do país e um dos responsáveis para que a inflação disparasse a 40% ao término do mandato de Ahmadinejad (atualmente, é de 10%).

O ministro de Estradas e Desenvolvimento Urbano, Abbas Ajundi, denunciou a falta de planejamento do projeto e de infraestrutura nas zonas escolhidas para as construções, sem transporte, hospitais, escolas ou parques.

Em janeiro de 2017, o Parlamento iraniano autorizou US$ 14 bilhões para finalizar as fases pendentes de Maskan Mehr, mas decidiu que não seriam construídas novas casas seguindo este esquema.

O projeto voltou a mostrar deficiências durante o recente terremoto. A Agência Efe pôde constatar em Sarpul Zahab, a área mais danificada da província de Kermanshah, que os edifícios de Maskan Mehr foram completamente destruídos.

De um desses imóveis, onde era comemorada uma festa de aniversário, as equipes de resgate tiraram os corpos de mais de 30 jovens sem vida, segundo os moradores locais.

"Os ricos construíram casas no centro da cidade e não aconteceu nada em seus apartamentos. Eu fiquei sem o meu lar e ainda devo dinheiro aos meus parentes e amigos", lamentou o operário Morteza Eskandari.

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