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O pesadelo dos japoneses que emigraram ao "paraíso" da Coreia do Norte

O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, acena para multidão durante desfile na praça Kim Il-Sung, em Pyongyang (10.set.2013) - KCNA/AFP
O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, acena para multidão durante desfile na praça Kim Il-Sung, em Pyongyang (10.set.2013) Imagem: KCNA/AFP

Por Antonio Hermosín

Em Tóquio

24/02/2018 06h01

Quase 100.000 japoneses de ascendência coreana emigraram à Coreia do Norte entre as décadas de 60 e 80 atraídos pela promessa de encontrar o "paraíso na terra", mas se depararam com uma realidade desoladora da qual muito poucos conseguiram escapar.

Em 1960, com apenas 17 anos, Eiko Kawasaki decidiu embarcar em uma viagem ao Norte após ouvir "histórias maravilhosas" sobre a prosperidade e a igualdade da qual desfrutavam ali todos os trabalhadores, graças ao regime utópico e paternalista fundado por Kim Il-sung.

"Fomos arrastados por falsas promessas. Ninguém nos obrigou a ir, mas acreditamos que o governo do Japão poderia ter feito algo para evitar", afirmou em uma coletiva de imprensa nesta semana Kawasaki, que escapou do país stalinista após viver ali por 43 anos, deixando para trás seu marido e cinco filhos.

Ela é uma das muitas "zainichi" (descendente de coreanos chegados na era do domínio colonial japonês sobre a península coreana, 1910-1945) que se deixou levar pela propaganda estampada em centros escolares japoneses controlados pela Chongryon, associação de coreanos residentes no arquipélago ligada ao regime dos Kim.

Sua viagem à Coreia do Norte, organizada por Pyongyang com a conivência do governo de Japão e da Cruz Vermelha japonesa - segundo denunciaram alguns historiadores e desertores como ela -, foi já uma antecipação do que lhes esperava ali.

A adolescente tomou um dos trens que percorriam o território japonês fretado pela Chongryon para transportar os emigrantes, e dos quais, uma vez a bordo, era "impossível" descer ou se comunicar com o exterior, segundo seu relato.

O destino do trem era Niigata, no oeste do Japão, de onde por sua vez partia um navio para Chongjin, na costa oriental norte-coreana, a terceira maior cidade do país e um dos seus principais portos.

"Íamos entoando canções tradicionais coreanas, e alguns até choraram e gritaram de alegria ao chegar à costa norte-coreana. Mas o ânimo se desvaneceu assim que chegamos a Chongjin, cujo aspecto era muito mais miserável que o porto de pescadores de Niigata", contou Kawasaki.

Em breve descobriram também o racionamento de comida, a obrigação de informar sobre o comportamento dos outros e a censura da correspondência que mantinham com suas famílias no Japão.

Kawasaki se viu "presa" no Norte, mas sabia que se arriscava a morrer ou a terminar em um campo de prisioneiros se tentasse escapar.

Assim aguentou décadas, durante as quais se casou e teve cinco filhos, e até que decidiu fugir quando "as coisas pioraram" com a chegada da "grande crise de fome" em meados dos anos 90.

"Havia montes de corpos empilhados nas ruas, inclusive de crianças", afirmou a emigrante sobre essa época, quando o isolamento econômico do regime e uma sucessão de más colheitas causaram a morte de milhões de pessoas, segundo estimativas internacionais.

Cerca de 87.000 japoneses "zainichi", aos quais se somam 6.000 mulheres japonesas que acompanharam seus maridos de etnia coreana, emigraram ao Norte dentro do "projeto da repatriação", também conhecido como "movimento do paraíso na terra", que foi anunciado pelo ex-líder Kim Il-sung em 1958 e se prolongou até 1984.

Agora, Kawasaki e outros desertores, com o apoio de juristas japoneses, decidiram apresentar um pedido perante a promotoria de Direitos Humanos do Tribunal Penal Internacional (TPI) para exigir responsabilidades da Chongryon, do governo japonês e de outras partes implicadas, como a Cruz Vermelha do Japão.

Eles consideram que esta migração em massa, na qual os envolvidos foram enganados e privados da sua liberdade desde o início da viagem, constitui uma "violação dos direitos humanos", segundo o pedido que apresentaram nesta semana na sede do TPI em Haia, na Holanda.

Documentos desclassificados do Executivo japonês mostram que Tóquio não só permitiu a logística desta repatriação em massa, mas foi seu principal promotor por motivos de segurança nacional, segundo a historiadora britânica Tessa Morris-Suzuki, autora de um livro e vários artigos acadêmicos sobre o tema.

Este fluxo migratório permitia ao Norte ganhar mão de obra qualificada, e ao Japão desfazer-se dos "zainichi", um grupo considerado problemático desde o final da II Guerra Mundial devido à sua dependência das ajudas estatais ou pelas suspeitas de que fossem comunistas ou espiões.

Por sua parte, a Chongryon, que se viu envolvida em diversas polêmicas por seus vínculos com o regime norte-coreano, negou qualquer responsabilidade no "projeto da repatriação" e sustenta que tudo aconteceu estritamente segundo o estipulado entre Tóquio e Pyongyang.

Kawasaki conseguiu fugir do Norte em março de 2003 através da porosa fronteira com a China e com a ajuda de um intermediário a quem pagou com o economizado durante quatro décadas, embora até quase um ano depois não tenha conseguido retornar ao Japão.

"Todos os desertores pensamos diariamente nos familiares que deixamos para trás, e cujas vidas pusemos em perigo", declarou Kawasaki, que confia que sua fuga sirva para "conseguir alguma mudança no regime ou para que pague pelos seus atos".