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Bahrein constrói catedral no deserto para promover coexistência religiosa

03/04/2019 10h03

Fernando Prieto Arellano.

Manama (Bahrein), 3 abr (EFE).- No meio do deserto, perto de oleodutos e torres de energia, obras indicam a construção da futura catedral de Nossa Senhora da Arábia no Bahrein, um pequeno país do golfo Pérsico "onde todos se conhecem" e que fez do diálogo inter-religioso um dos seus princípios básicos.

Aparentemente, o visitante só vê o vai e vem de caminhões e operários que, sob um sol já forte nesta época do ano, cavam a terra, preparam as fundações e começam a dar forma ao que, segundo as autoridades do Bahrein, será um dos maiores templos não muçulmanos do mundo árabe, que deve ficar pronto no final de 2020.

O rei Hamad do Bahrein destinou US$ 30 milhões para a construção da catedral, que terá capacidade para mais de duas mil pessoas, segundo disse seu irmão, o príncipe Khalid Bin Khalifa Al Khalifa, presidente do Centro Global pela Coexistência Pacífica, em declarações a um grupo de jornalistas.

O príncipe Khalid explicou que, por um lado, seu país é enfático quanto à necessidade de separar a política da religião e, por outro, ao fazer do diálogo inter-religioso e da coexistência pacífica a pedra fundamental de sua abordagem como Estado.

"O imame na mesquita tem que se ocupar da religião, mas não pode usá-la com propósitos políticos", disse o príncipe Khalid, que ressaltou que a legislação bareinita proíbe misturar esses dois elementos.

Em tom de brincadeira, Bin Khalifa comentou que "a vantagem de ser um país pequeno, como o é Bahrein, é que todo mundo se conhece. Não temos problemas nem os procuramos".

Curiosamente, e ao contrário de outros países da região muito mais homogêneos do ponto de vista étnico e religioso, no Bahrein se fala árabe com diversos sotaques e inclusive com diversas variedades. "Isso nos enriquece, pois denota uma convivência e uma mistura de povos e culturas", destacou o príncipe.

"O Bahrein fez da tolerância uma constante em sua política, um meio de entender a coexistência, que é um elemento fundamental em qualquer sociedade", ressaltou.

No mesmo sentido se pronunciou o príncipe herdeiro do Bahrein, Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa, que, em uma recepção oferecida pela ocasião do bicentenário da inauguração do primeiro templo hindu em território bareinita, declarou que "ao longo da sua história o país fez da cultura da paz uma constante".

"O Bahrein vive e quer viver com propósitos pacíficos, pois tudo o que vive aqui contribui para o crescimento e o desenvolvimento do país", afirmou o príncipe Salman.

Além disso, os jornalistas visitaram o que por enquanto é o principal templo católico de Manama, a igreja do Sagrado Coração, cujo pároco é o padre Sherval, frade capuchinho libanês.

É uma igreja moderna, como tantas de várias cidades de países cristãos, e tem uma vida muito ativa, pois atende à comunidade católica de várias partes do mundo, como a Índia e as Filipinas, além do próprio Bahrein.

"Mais de cem famílias originárias do Bahrein são de denominação cristã", segundo o príncipe Khalid, que insistiu que esse princípio de coexistência anda de mãos dadas com o princípio de igualdade de oportunidades e deu como exemplo o fato de o anterior embaixador bareinita em Londres ser cristão, enquanto o que esteve à frente da embaixada nos Estados Unidos é judeu.

O Centro Global para a Coexistência tem um convênio com a Universidade de Roma La Sapienza para o estudo da religião e para a troca de informação.

Nesse sentido, o professor Alessandro Saggioro, que leciona História da Religião nessa universidade, declarou que o Bahrein "tem uma realidade muito interessante, que a Europa não conhece bem, em matéria de pluralismo religioso".

"Na Europa, o pluralismo religioso tem uma longa tradição, mas é muito interessante observar este fenômeno nesta parte do mundo e isso como expoente de uma sociedade global", afirmou o professor italiano.

Saggioro se referiu à declaração a favor da tolerância e do diálogo inter-religioso formulada em outubro de 2017 pelo rei Hamad e a qualificou como "um elemento que apresenta uma novidade importante, já que teve um notável impacto na região".

Obviamente, segundo comentou o docente, "a liberdade religiosa é um ponto de partida que pode se estender a outras liberdades, pois sem a cultura da liberdade religiosa não se pode passar a outro tipo de liberdade. Por isso, este pode ser um bom começo". EFE