ESTREIA-"Jonas" mistura história bíblica, sequestro e questões sociais em romance policial

SÃO PAULO (Reuters) - Um Pierrot e Colombina às avessas, calcados numa relação obsessiva, impregnada pela síndrome de Estocolmo e efeitos das relações sociais, raciais, de poder sociais e de gênero. A mistura carnavalesca, nem sempre eficiente, do romance dramático e thriller de “Jonas” chega finalmente ao circuito comercial após rodar discretamente pelos festivais, há mais de um ano.

O filme de estreia de Lô Politi foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo do ano passado e vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio 2015.

Trata-se de uma produção com apelo comercial pelo chamariz de seu elenco: o talentoso Jesuíta Barbosa na pele do protagonista que dá título ao longa; o ator-cantor Chay Suede em participação como o namorado da sedutora menina Branca, interpretada pela atriz e modelo Laura Neiva, namorada dele na vida real; e os maiores nomes da atual cena do rap brasileiro, como o Criolo e Karol Conká.

Além disso, a ambientação de um filme de gênero ocorre no carnaval paulistano, ainda que mais como fetiche do que como representação deste mundo. A escola de samba Pérola Negra, do bairro da Vila Madalena, que serve de cenário da história, integra a trama, assim como o Sambódromo.

O centro da história é a paixão de Jonas por Branca, filha da patroa de sua mãe e sua amiga de infância, que o coloca em situações inesperadas e que fogem de seu controle, como sequestrar a sua amada. Pelo menos, é assim que a obra tenta pontuar a sua ação e a justifica, ainda mais quando o jogo de sedução se intensifica entre sequestrador e vítima.

O roteiro da diretora com Élcio Verçosa põe o rapaz no meio, racial e socialmente falando, da classe média rica paulistana e do submundo do crime, aqui com o tráfico de drogas a serviço dos primeiros. Mas não traz novidades sobre esses temas, tão debatidos no cinema nacional. Ele também carece de mais complexidade de seus personagens e situações, o que se torna mais evidente no desnecessário reforço das metáforas bíblicas em relação ao profeta engolido pela baleia no texto, talvez porque lhe falte força na construção desta alegoria em si.

Há uma preocupação excessiva com os adereços, marcantes na fotografia e na montagem, tornando-se estilo e não expressão de significado do enredo. Isso culmina no clímax, pois todo carnaval tem seu fim e aqui era para ser epicamente trágico. No entanto, o que salta aos olhos é a baixa qualidade dos efeitos especiais da cena.

Por outro lado, a prova de que na simplicidade reside a verdadeira força de “Jonas” está na relação do rapaz e de seu irmão Jamder, vivido pelo então ótimo garoto Luam Marques, premiado no Los Angeles Brazilian Film Festival, cuja dinâmica fraterna garante frescor à obra e a dose necessária de empatia pelo filme.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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