ESTREIA-Amy Adams tenta se comunicar com alienígenas em "A Chegada"

SÃO PAULO (Reuters) - Quando os alienígenas chegarem, como vai ser? Pode haver pompa e circunstância, com fanfarra e fogos, mas também destruição e caos. Na ficção científica “A Chegada”, do canadense Denis Villeneuve, a entrada é discreta e seria quase imperceptível não fosse o fato de suas naves serem parecidas com gigantescas pedras flutuantes a alguns metros do solo de cidades do mundo.

Mas o que eles querem? Pode ser apenas fazer contato, pode ser a vida humana (ou de qualquer outra espécie) ou trazer a paz para a Terra. Para descobrir, é preciso fazer algum contato, e, mais do que isso, é preciso que haja comunicação entre ambas as partes.

Na situação aqui representada, porém, não existe nenhum ser saindo de dentro da nave, nem em missão de paz ou terror. Então, como começar uma amizade? A saída é a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já trabalhou para o Exército, por isso é conhecida deles e dos procedimentos.

“Você fez um trabalho rápido com os vídeos dos rebeldes”, diz o coronel Weber (Forest Whitaker), quando se aproxima dela, referindo-se a traduções de farsi de Louise no passado. “E vocês fizeram um trabalho rápido com os rebeldes”, responde ela, com certa amargura, por seu papel naquele trágico episódio.

O filme começa com um pequeno resumo de fatos da vida de Louise --envolvendo um marido, uma filha, uma doença fatal na adolescência. Logo depois, está na sala de aula, onde os poucos alunos começam a receber chamadas do celular, e os canais de televisão não falam de outra coisa a não ser dos alienígenas que pousaram na Terra.

Quando procurada pelo Exército, a doutora Banks não aceita logo de cara por causa das condições que impõe. Mas, no fim, logo mais ela e um físico, Ian Donnelly (Jeremy Renner), entram em preparação, com trajes laranja para entrar no óvni.

Lá dentro, tudo o que os dois especialistas imaginam saber sobre física e linguagem cai por terra – a física e a linguagem.

De certa forma, “A Chegada” é um filme sobre uma linguista desenvolvendo um método de tradução para uma língua alienígena -- e Villeneuve e seu roteirista, Eric Heisserer, trabalhando a partir de um conto do norte-americano Ted Chiang (“A história de sua vida”), fazem disso um espetáculo com inteligência e criatividade.

Os alienígenas são diferentes de praticamente tudo que já se viu. Dentro da nave, ficam atrás de um vidro transparente, cercados por uma espécie de bruma, mas é a sua linguagem que impressiona.

A saída visual para isso é ótima: círculos complexos e ao mesmo tempo delicados que comprimem em si mais do que palavras. A questão central da primeira parte do filme é decifrar esse código linguístico. Quando, afinal, isso acontece, a questão é ouvir e entender o que a dupla de aliens --apelidados de Abbott e Costello-– tem a dizer e a oferecer. Aí, entra a nossa pouca compreensão do mundo e do estrangeiro.

Em meio a seu processo de decifração, Louise começa a ter visões envolvendo aquela menina vista no começo do filme. São rápidas lembranças que a desestabilizam e, com o tempo, trazem a profunda ressonância emocional de “A Chegada”.

A questão, como fica claro, não é compreender os ETs, mas entendermos uns aos outros. O grande acerto do filme é fazer uma ficção científica com todas as peculiaridades e questionamentos do gênero, conferindo o sentimento sem cair em sentimentalismos baratos.

Esse universo é construído com perfeição técnica graças à fotografia de Bradford Young (“O Ano Mais Violento” e “Selma”), que transita entra o intimismo de um close e o sentido épico de um plano mais aberto dando a dimensão do tamanho das naves diante do humano; e a trilha sonora do islandês Jóhann Jóhannsson --constante colaborador de Villeneuve-- que, mais do que músicas, cria aqui uma sucessão de ruídos que poderiam tanto ser gritos quanto sussurros dos alienígenas ou de alguma entranha forma humana.

Nada disso funcionaria se não fosse a profunda percepção de Amy Adams de sua personagem. Ela tem que construir uma Louise vivendo no presente, mas afligindo-se pelo futuro. É possível fugir do destino? Existe um determinismo do qual podemos escapar? E, então, a linguagem seria a ferramenta e a saída, segundo o longa.

A grande utopia em “A Chegada” é o que fazemos com a informação que nos é dada. E, a partir disso, Villeneuve compõe um belo filme.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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