PUBLICIDADE
Topo

Na cidade do futuro, poderemos fazer tudo em 15 minutos a pé, defende cientista

05/03/2020 16h47

O cientista franco-colombiano Carlos Moreno lançou um conceito que está dando a volta ao mundo. Baseado em um sistema de reorganização urbana, ele imaginou a "cidade dos 15 minutos", um projeto no qual os moradores terão acesso a tudo o que precisam a apenas 15 minutos de distância a pé. A ideia seduziu muitos políticos, entre eles a atual prefeita de Paris, que tenta se reeleger usando o modelo de Moreno como argumento de campanha.

O cientista franco-colombiano Carlos Moreno lançou um conceito que está dando a volta ao mundo. Baseado em um sistema de reorganização urbana, ele imaginou a "cidade dos 15 minutos", um projeto no qual os moradores terão acesso a tudo o que precisam a apenas 15 minutos de distância a pé. A ideia seduziu muitos políticos, entre eles a atual prefeita de Paris, que tenta se reeleger usando o modelo de Moreno como argumento de campanha.

Entrevista realizada por Braulio Moro

Parece quase utópico visto de metrópoles como São Paulo, Cidade do México ou Bogotá. Mas Carlos Moreno está convencido. Especialista em "cidades inteligentes", o cientista da Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne argumenta que as zonas urbanas podem ser transformadas para que a maioria dos serviços esteja mais próximos dos habitantes. Segundo ele, essa transformação pode acarretar benefícios ambientais e, se bem implementada, não representa nenhum custo suplementar para a comunidade.

"A cidade de 15 minutos é um conceito fruto das minhas pesquisas, que busca recriar uma qualidade de vida, saindo do anonimato das metrópoles e de uma vida sempre apressada com longos trajetos entre a casa e o trabalho. É assim que se perde o tempo útil da vida", explica. "Esse conceito consiste em redescobrir a proximidade geográfica e a proximidade familiar. Redescobrir o bairro para que a cidade não seja socialmente segmentada", explica.

Concretamente, o cientista propõe que em vez de ter um único centro nas cidades ou que as diferentes atividades (comerciais, industriais, administrativas, etc.) sejam realizadas em locais diferentes, seja implementada a ideia de "locais-chave". Ele dá como exemplo a prefeitura ou um ginásio, que passariam a ser abertos para outros usos e, principalmente, que esses locais poderiam ser acessados a pé ou de bicicleta em, no máximo, 15 minutos.

Ele se inspirou dos bons resultados de algumas experiências em Tóquio, trabalha constantemente no México, em seu país de origem e, é claro, em Paris, que considera um laboratório a céu aberto. A capital francesa concentra cerca de 2,5 milhões de pessoas e tem todos os problemas de uma grande capital.

Paris tem 21 mil habitantes por quilômetro quadrado

O caso de Paris é emblemático para o pesquisador. Sétima cidade mais povoada do mundo, a capital francesa tem 21 mil habitantes por quilômetro quadrado. A via marginal que a circunda tem um trânsito tão denso que já é considerada a rota mais engarrafada da Europa, além de ser uma das mais poluídas. É por ela que passam mais de 1 milhão de veículos diariamente, entre parisienses que evitam atravessar o centro, e moradores vindos das cidades vizinhas, que trabalham na capital.  

"Paris obedece a um princípio arquitetônico imaginado pelo barão Haussmann no século XIX, que foi muito propício à caminhada. É a cidade no mundo em que 54% das viagens são feitas a pé. Mas isso vem sendo esquecido. Paris é como um pequeno ovo, cheio de gente. Porém, um modo de vida baseado na ignorância da proximidade foi adotado", sentencia. "O desenvolvimento econômico é baseado em centralidades e extremidades: as pessoas trabalham no oeste e vivem no leste, enquanto as indústrias são no norte ... Queremos oferecer uma transformação para que as ruas não sejam para carros, mas para pedestres e também um local vivo".

Seis coisas indispensáveis para a qualidade de vida

Moreno explica que "após a Segunda Guerra Mundial, o planejamento urbano passou a ser concentrado em uma cidade funcional e produtiva, abandonando a noção de bem-estar ". No entanto, ele insiste que "a vida urbana deve permitir que cada pessoa acesse seis coisas fundamentais: morar com dignidade, trabalhar em boas condições, ter acesso à saúde, à educação, à diversão e aos produtos que precisa". E, para ele, a qualidade de vida se concretiza apenas quando se reduz da distância para se alcançar essas condições.

Como outros políticos que começam a se inspirar do projeto de Moreno, a ideia da "cidade dos 15 minutos" agradou Anne Hildago, que tenta se reeleger para a prefeitura de Paris. Ferrenha defensora do uso de bicicletas no espaço urbano, a prefeita, que implementou várias medidas para diminuir o número de carros na capital, vem usando o conceito de Moreno em sua campanha.

"O paradigma do que tem sido a cidade moderna precisa ser mudado", martela o cientista. Ele insiste que seu projeto, visto por muitos como algo utópico, precisa de esforços do poder público. "Uma mudança tão radical implica uma boa presença do governo e concede aos cidadãos muito mais poder de decisão", explica. Mas para Moreno, que acabou se transformando em cabo eleitoral de Hidalgo, "com a vontade política necessária, essa cidade de 15 minutos é possível".