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Brasil: gestantes morrem mais de Covid-19 do que o resto da população

06/05/2021 11h06

A Covid-19 está matando mais gestantes e puérperas brasileiras do que a população em geral. O número de mortes maternas neste ano por coronavírus já ultrapassa o total de mortes deste grupo registrado em 2020.

A Covid-19 está matando mais gestantes e puérperas brasileiras do que a população em geral. O número de mortes maternas neste ano por coronavírus já ultrapassa o total de mortes deste grupo registrado em 2020.

As gestantes e puéperas brasileiras estão sendo duramente castigadas pela epidemia de coronavírus. O alerta é feito pelo Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 (OOBr Covid-19), que compila e analisa dados sobre a saúde desta população específica durante a pandemia.

A plataforma aponta que, nos quatro primeiros meses deste ano, 494 mortes maternas foram registradas, ultrapassando os 457 óbitos dentro deste grupo contabilizados em todo o ano de 2020. Esse aumento pode ser explicado pela expansão da variante P1 este ano no país, segundo explicou à RFI uma das idealizadoras do OOBr Covid-19 e presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp), a obstetra Rossana Francisco.

"Hoje, no Brasil, temos a variante P1 na maioria dos estados. Já existem alguns estudos que mostram que ela é mais transmissível. Ou seja, se aumenta a transmissão, mais pessoas ficam doentes, sobrecarregando mais ainda o sistema de saúde que já tem uma fragilidade grande", diz professora do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP.

A médica também expressa sua preocupação com o aumento importante da média semanal de mortes por Covid-19 em 2021, em relação ao ano passado, entre gestantes e puérperas. O acréscimo, segundo ela, é maior do que o registrado entre a população geral: "Entre as gestantes e puérperas, esse aumento é de 200%, enquanto que entre a população geral é de 90%".

Fragilidade do sistema de saúde

Rossana Francisco explica que, mesmo antes da pandemia, os números de mortes maternas no Brasil já eram altos, o que demonstra a fragilidade do sistema de saúde voltado para esse grupo. Segundo ela, em 2019, a taxa de mortalidade materna no Brasil foi de 55 para cada 100 mil bebês nascidos vivos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que esse número deve ser inferior a 20.

"Nós já tínhamos um sistema frágil e, com a sobrecarga que a Covid trouxe, se tornou mais frágil ainda, especialmente para essa população de gestantes e puérperas".

O Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 indicou recentemente que uma em cada quatro gestantes e puérperas mortas pelo coronavírus no Brasil não tiveram acesso às UTIs e 34% não foram intubadas - procedimento que poderia ter salvo a vida dessas mulheres. "Uma das hipóteses para esse fenômeno é a necessidade de deslocamento dessas pacientes do seu local de residência para conseguir atendimento em outro municípios", explica.

Além disso, Rossana Francisco sublinha que a estrutura hospitalar para gestante de alto risco no Brasil é muito falha. "Muitas vezes não temos no mesmo hospital uma equipe de obstetras especializada em gestação de alto risco, uma unidade de UTI materna ou mesmo uma unidade de UTI neonatal", diz.

Vacinação de gestantes

O Brasil não teve diretivas específicas focadas para essa população durante a crise de Covid-19. Até o momento, a vacinação está disponível apenas se essas mulheres fizerem parte de grupos de risco. No entanto, essa situação pode mudar em breve.

"O Programa Nacional de Imunização está agora propondo que as gestantes sejam consideradas grupos de risco e que seja um grupo prioritário para a vacinação. Então, deve começar em breve uma vacinação das gestantes", prevê. Esse já é o caso na França, a partir do segundo trimestre de gravidez.

A proposta foi realizada depois que o Observatório conseguiu chamar atenção aos dados que compilou. A questão está sendo abordada junto a algumas secretarias estaduais de saúde.

"Entendemos que os estados, municípios e o governo federal precisam mobilizar essa rede de atenção às gestantes e puérperas. Se houver uma organização neste momento da Covid, ela pode continuar funcionando depois da pandemia e, com isso, se conseguir a redução das mortes maternas", defende.

A obstetra também alerta para a importante variação do percentual de mortes de gestantes e puérperas em UTIs em diferentes estados brasileiros. "Isso mostra também um outro lado desta situação, a desigualdade em relação às diferentes regiões. Esses números ressaltam a necessidade de uma estruturação urgente da rede de saúde para essas mulheres", preconiza.