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"Migração é uma das questões mais trágicas desde a Segunda Guerra", diz professor da Sorbonne

11/05/2021 13h13

O número de pessoas deslocadas no mundo ultrapassa 80 milhões. Os dados da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) apontam que este cenário se agrava devido à pandemia da Covid-19, que deixa ainda mais vulneráveis as populações que já viviam em situações de risco. A ONU prevê que, em 2021, o mundo terá a pior crise humanitária em décadas. Este triste fenômeno é o centro de interesse do Projeto Migra, que fomenta o debate entre diferentes atores sociais de diversos países.

O número de pessoas deslocadas no mundo ultrapassa 80 milhões. Os dados da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) apontam que este cenário se agrava devido à pandemia da Covid-19, que deixa ainda mais vulneráveis as populações que já viviam em situações de risco. A ONU prevê que, em 2021, o mundo terá a pior crise humanitária em décadas. Este triste fenômeno é o centro de interesse do Projeto Migra, que fomenta o debate entre diferentes atores sociais de diversos países.

"A 'migrância' é uma das questões mais trágicas que temos vivido desde a Segunda Guerra Mundial. E é uma questão também muito próxima do Brasil, não apenas por ter recebido migrantes desde o início do século 19, mas também por se confrontar com a questão dos deslocamentos territoriais dentro do espaço latino-americano", contextualiza Leonardo Tonus, professor de Literatura Brasileira na Sorbonne Université de Paris e idealizador do Projeto Migra.

No entanto, muito mais que lançar luz sobre um dos debates mais pertinentes e urgentes dos dias atuais, a ação se diferencia por criar diálogos improváveis ou inesperados entre diferentes atores em torno do processo migratório. Ao todo, a iniciativa reúne, até outubro, mais de 80 participantes, entre escritores, artistas visuais, cineastas, dramaturgos, ilustradores, pesquisadores e atores da sociedade civil, para este diálogo transdisciplinar e entre diferentes países.

"Nós precisamos construir projetos de maneira conjunta. A ideia de estabelecer esse diálogo em torno do tema surge da necessidade de criar laços, de criar pontes entre diferentes disciplinas, entre diferentes espaços da sociedade, não somente culturais, que estejam trabalhando ou que tenham alguma ligação com essa temática", acrescenta Tonus, que é especialista sobre migração na produção cultural latino-americana.

Diversidade de vozes

Ele explica que o projeto se constrói a partir da ideia de um debate, uma ação transnacional, que envolve participantes "dos quatro cantos do mundo", desde os Estados Unidos, Canadá, Islândia, passando por países da África e pelo Brasil. Em anos trabalhando com a questão da migração, com sua visibilidade ou invisibilidade na área cultural, Tonus alega ter assistido pouca relação ou interligação entre outros campos de atuação ou reflexão, como o direito, as relações internacionais, ou até mesmo a moda.

"A ideia foi trazer diferentes atores. Dentre eles posso citar, por exemplo, Ronaldo Fraga, estilista brasileiro; Paulo Betti, ator e também dramaturgo, que tem trabalhado sobre a questão das migrações internacionais; Leila Danziger, artista plástica brasileira; ou ainda Salim Zerrouki, cartunista argelino que mora atualmente na Tunísia, que acabou de lançar um álbum sobre a condição dos refugiados da África em relação à Europa", enumera o professor.

Em meio às discussões motivadas pelo Projeto Migra, Leonardo Tonus destaca, por exemplo, além da tragédia humanitária em si, a delicada e desafiadora situação da recepção, em que se pergunta: Como acolher? Como receber dignamente estas pessoas?

"Penso, por exemplo, em Julián Fuks, que é um dos nossos grandes autores premiados no Brasil, cujo último trabalho fala exatamente sobre a nossa capacidade, ou incapacidade, de olhar o outro. [É preciso refletir sobre] o acolhimento, a hospitalidade e, é claro, a dignidade humana de pessoas que vivem praticamente aprisionadas em campos de refugiados ou, então, como é o nosso caso aqui na Europa, [pessoas] que são confrontadas a observar esse Mar Mediterrâneo, que nos últimos anos, infelizmente, se transformou em um dos maiores cemitérios a céu aberto".

Encontros quinzenais, online e gratuitos

A dinâmica do Projeto Migra se baseia principalmente em encontros quinzenais, realizados geralmente aos sábados. Durante a ação, todos os debates, leituras, jornadas acadêmicas, encontros com estudantes e lançamentos de livros acontecem pelo canal do Youtube e pela página do projeto no Facebook. E a programação completa é atualizada permanentemente em seu site.

Ao lado de Leonardo Tonus, integram a comissão organizadora do Projeto Migra a cineasta Alessandra Pajolla e o diretor de arte Vítor Rocha, além dos professores universitários Clara Fachini Zanirato (USMA West Point), Daniela Kopsch (Sorbonne Université), Keli Pacheco (Universidade Estadual de Ponta Grossa), Lara Bourdin (McGill University), Luciana Rangel (Universität Bielefeld) e Tânia Tonus (Conservatório Municipal de Tatuí).