PUBLICIDADE
Topo

Morre aos 76 anos o francês Christian Boltanski, gigante da arte contemporânea

14/07/2021 15h24

Um artesão da memória, era assim que se considerava o artista plástico francês Christian Boltanski, com décadas dedicadas a um trabalho sensível em que tecia os elos entre o individual e o coletivo, entre os ritos e a experiência, entre a vida e a morte. Aos 76 anos, o gigante da arte contemporânea morreu no hospital de Cochin, em Paris, nesta quarta-feira (14).

Um artesão da memória, era assim que se considerava o artista plástico francês Christian Boltanski, com décadas dedicadas a um trabalho sensível em que tecia os elos entre o individual e o coletivo, entre os ritos e a experiência, entre a vida e a morte. Aos 76 anos, o gigante da arte contemporânea morreu no hospital de Cochin, em Paris, nesta quarta-feira (14).

O anúncio foi feito por Bernard Blistène, ex-diretor do museu de arte moderna do Centro Pompidou, que dedicou uma retrospectiva a Boltanski em 2019. "Ele estava doente. Ele era um homem modesto, que escondia as coisas o máximo que podia", afirmou Blistène.

Autodidata, o artista afirmou ter "lutado contra o esquecimento e o desaparecimento" por meio de suas obras, sempre acessíveis, em uma mistura de objetos, vídeos, fotografias e instalações.

"Nunca quis falar de heróis, mas de pessoas comuns, porque cada um é único e tem coisas para contar. A grande história está nos livros. Eu me interessei à pequena história que faz de cada um diferente. Eu tive o desejo de criar um museu para cada indivíduo. Todo mundo é interessante, você pega uma pessoa qualquer puramente ao azar e ela é extremamente apaixonante", afirmou Boltanski, em entrevista concedida à ocasião de sua retrospectiva no Centro Pompidou, em Paris.

"É uma grande perda", disse Blistène. "Ele amou acima de tudo a transmissão entre as pessoas, através de histórias, através de memórias. Ele permanecerá como um dos maiores contadores de histórias de seu tempo. Foi um inventor incrível."

O artista plástico, que se tornou conhecido em 1971 ao expor na galeria Sonnabend, viajou o mundo com suas obras que, ao longo da carreira, investigaram a vida, a morte e as dores humanas.

Em 2014, Boltanski fez uma instalação inédita que apresentou no Sesc Pompeia, em São Paulo. A Instalação ocupava 1.400 m² com 950 arranha-céus feitos de papelão e cobertos por páginas com nomes em uma lista telefônica.

Filho dos horrores da guerra

Christian-Liberté Boltanski nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, em 6 de setembro de 1944, filho de um médico judeu de origem ucraniana e de uma católica corsa. Durante a ocupação nazista da França, sua mãe fingiu um divórcio e escondeu o marido no porão.

Após a morte de seu pai, Boltanski vai abordar a perseguição antissemita e os campos de concentração em obras como na instalação "Personnes", montada no Grand Palais de Paris em 2010.

"O grande trauma da minha vida, sem dúvida nenhuma, (...) foi o fato de que quando eu era criança, a maior parte dos amigos dos meus pais eram sobreviventes do Holocausto e, durante horas, eles contavam atrocidades. Eu devia ter entre dois e cinco anos, realmente muito pequeno, e tenho lembranças dos horrores", contou Boltanski em 2019.

Como artista, ele tinha como seu grande objetivo criar memória para cada pessoa. "Uma coisa que a gente não consegue entender é a importância de cada pessoa e sua morte. Desde que começamos a conversar, cerca de 500 mil pessoas morreram, todas elas únicas, todas elas extraordinárias. Eu faço o culto dos ancestrais e dos humanos", afirmou Boltanski na mesma entrevista.

(Com informações da AFP)