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Governo americano acelera expulsão de migrantes do Texas para o Haiti

20/09/2021 13h35

A administração do presidente americano, Joe Biden, decididiu acelerar as expulsões de cerca de 15 mil migrantes, principamente haitianos, bloqueados entre as fronteiras do Texas e do México. A novidade se espalhou rapidamente no campo para refugiados de Del Rio, na fronteira, e poucos estrangeiros se apresentam à polícia aduaneira do local para pedir asilo, temendo a expulsão, relata o enviado especial da RFI ao local, Thomas Harms.

A administração do presidente americano, Joe Biden, decididiu acelerar as expulsões de cerca de 15 mil migrantes, principamente haitianos, bloqueados entre as fronteiras do Texas e do México. A novidade se espalhou rapidamente no campo para refugiados de Del Rio, na fronteira, e poucos estrangeiros se apresentam à polícia aduaneira do local para pedir asilo, temendo a expulsão, relata o enviado especial da RFI ao local, Thomas Harms.

No campo, os voluntários que buscavam levar ajuda aos migrantes, como Santiago, se sentem totalmente impotentes diante da situação. Ele trabalha na coalizão humanitária fronteiriça de Del Rio e "faz o que pode". Durante a entrevista, Santiago descarregava pacotes de garrafa de água. No hangar da organização também há um estoque de produtos de primeira necessidade, fraldas e bicicletas para as crianças. 

O voluntário conta que, há uma semana, eles estavam sobrecarregados e centenas de migrantes passavam todos os dias no local, enviados pelas autoridades americanas. Mas, neste fim de semana, o movimento diminuiu drasticamente. "Não sabemos exatamente porque eles sumiram. Em geral eles passam em nosso centro antes de deixar a cidade", explica. "Ao mesmo tempo, observa, um ônibus acabou de passar. Acho que as autoridades estão se organizando para enviá-los para outro lugar", diz.

A maioria dos migrantes chegaram do México à pequena cidade do Texas, atravessando o rio Grande, e se instalaram debaixo de uma ponte. No início da semana, havia apenas 2.000 pessoas no local, mas, no sábado (18), esse número já havia subido para 14.800, de acordo com o prefeito de Del Rio, Bruno Lozano. As imagens, impressionantes, levaram ao governo americano a organizar as expulsões.

O centro chegou a receber um carregamento de produtos de primeira necessidade, mas as autoridades da cidade, do Texas e dos Estados Unidos preferiram gerenciar sozinhas o fluxo de migrantes, sem mediação. O prefeito pediu aos moradores, por exemplo, que parassem de trazer comida para os estrangeiros.

"Sabemos que muitos querem ajudar, mas mão tragam mais comida, a não ser que isso seja solicitado. Não queremos que os alimentos estraguem com o calor, então esperem que a polícia da fronteira entre em contato", declarou Bruno Lozano. Milhares de migrantes, a maoiria haitianos, foram transportados para outros postos fronteiriços do Texas, onde o processo de expulsão para o Haiti deve ser acelerado.

O número de migrantes haitianos têm aumentado no país nos últimos meses. Além da instabilidade política e da falta de segurança, o terremoto que destruiu parcialmente o sudoeste do país e matou mais de 2.200 habitantes piorou a situação.

As dificuldades da população do Haiti levaram o presidente Joe Biden a suspender as expulsões dos migrantes em situação irregular, por tempo indeterminado, como lembra Amélie Baron, correspondente da RFI em Porto Príncipe, a capital haitiana. A decisão, entretanto, foi aplicada durante um mês. Na última quarta-feira (15), mais de 80 migrantes haitianos foram expulsos dos EUA.

Crianças pequenas

No domingo (19), três voos deixaram o Texas, levando mais de 320 pessoas de volta para Porto Príncipe. A maioria dos passageiros tinha menos de cinco anos. As crianças nasceram no Chile, mas foram expulsas com os pais, que emigraram do Haiti em 2016 em busca de trabalho. Hoje, eles temem o retorno ao país, como essa jovem haitiana entrevistada pela RFI, que prefere manter o anonimato."Entraram na casa do presidente e o assassinaram. Imagine o que pode acontecer comigo?", questiona.

"No início, deixei o país porque não achava trabalho. Agora que estou aqui, não tenho nenhuma chance de encontrar porque o país está cada vez pior", declara. Ela vivia no Chile desde 2016, mas achou que poderia tentar a vida nos Estados Unidos. Em julho, ela, o marido e o filho de três anos iniciaram uma perigosa travessia através da América Central. 

"Se eu soubesse como seria esse trajeto, nunca teria tentado. Eu me arrependi de ter tentado. Vivia bem no Chile, tinha minha loja e meu marido trabalhava. Foi assim que conseguimos juntar dinheiro para ir até o México. A viagem custou, do Chile até o México, entre US$ 7.000 e US$ 8.000. Do México até os Estados Unidos, gastamos mais de US$ 3.000. Agora não temos mais nada", lamenta.

Outros três aviões de migrantes em situação irregular devem decolar ainda nesta segunda-feira (20) e os voos devem manter esse ritmo durante toda a semana. A chegada de centenas de pessoas constitui um problema a mais para o país. O diretor da Organização Internacional de Migrações no Haiti, Guiseppe Loprette, está preocupado, após o assassinato do presidente Jovenel Moïse e o terremoto que devastou o país. "A mensagem é clara: o Haiti não está pronto para receber de volta migrantes neste momento."

Ajuda internacional

A instabilidade política no Haiti causou "cansaço nos doadores internacionais" e, sem a ajuda de emergência, dezenas de milhares de crianças não poderão retornar em outubro às escolas, afetadas pelo terremoto, alertaram autoridades internacionais neste fim de semana.

Durante uma visita ao país nesta sexta (17) e sábado (19), Janez Lenarcic, comissário europeu de Gestão de Crises, reconheceu que os parceiros estrangeiros estão cansados de financiar a ajuda humanitária ao Haiti. "Há sinais do que pode ser chamado de fadiga dos doadores", comentou o diplomata europeu em viagem à região devastada pelo terremoto de 14 de agosto, que deixou mais de 2.200 mortos.

Bruno Maes, diretor do Unicef no Haiti, alertou que "cerca de 200 mil crianças não poderão voltar à escola como planejado este ano se o apoio ao país não for intensificado nos próximos dias. São necessários US$ 39 milhões, mas apenas US$ 5 milhões foram doados", lamentou. A União Europeia liberou € 3 milhões em ajuda emergencial após o terremoto, mas exige garantias democráticas para retomar as doações. 

(RFI e AFP)