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Atriz brasileira humaniza "corpo-travesti" e dinamita clichês para plateia francesa com "Manifesto Transpofágico" em Paris

24/09/2021 13h21

Ela poderia, se quisesse, se autodenominar uma atriz trans brasileira cuja peça, escrita por ela mesma, é destaque nesta temporada no principal circuito de artes cênicas da capital francesa, o Festival de Outono de Paris. Renata Carvalho, no entanto, não espera nem pede a complacência de nenhuma plateia. Com "Manifesto Transpofágico", ela incorpora frontalmente a violência e a exclusão com que sua história-travesti foi escrita, sem deixar de humanizá-la, no intervalo entre preconceitos. 

Ela poderia, se quisesse, se autodenominar uma atriz trans brasileira cuja peça, escrita por ela mesma, é destaque nesta temporada no principal circuito de artes cênicas da capital francesa, o Festival de Outono de Paris. Renata Carvalho, no entanto, não espera nem pede a complacência de nenhuma plateia. Com "Manifesto Transpofágico", ela incorpora frontalmente a violência e a exclusão com que sua história-travesti foi escrita, sem deixar de humanizá-la, no intervalo entre preconceitos. 

"Quem nunca tocou o corpo de uma travesti?", pergunta a atriz brasileira Renata Carvalho para uma plateia lotada de franceses atentos, na segunda parte do espetáculo "Manifesto Transpofágico, no espaço Cardin do Théâtre de La Ville, na capital francesa. Olhares atentos e gestos tímidos de quem levanta a mão. "Quer tocar?", pegunta a atriz a uma jovem francesa, que gesticula positivamente com a cabeça. Gel hidroalcoolico nas mãos, a garota toca o corpo escultural e esculpido com silicone, como narrado pela própria protagonista em seu solo. Nesse momento, uma barreira simbólica e transfronteiriça é estilhaçada, entre culturas, sexos, gêneros, maneiras de ver o mundo. "Pega, menina, não seja tímida" - o humor da atriz rompe o último muro com o público, que vem abaixo em gargalhadas.

"Manifesto Transpofágico" integra a programação especial em homenagem à coreografa brasileira Lia Rodrigues do Festival de Outono da capital francesa. Renata Carvalho faz parte dos 10 artistas brasileiros convidados por Lia Rodrigues a participar do evento. A peça, que já esteve em cartaz, entre outros na Mostra Internacional de Teatro e no Teatro Municipal de São Paulo, traz uma historiografia do corpo-travesti, uma reconstituição da (trans)cestralidade desse corpo-travesti no Brasil, mostrando o imaginário, a construção social e a criminalização que o constituíram em suas origens. O solo se baseia numa pesquisa de Renata Carvalho intitulada "Transpologia", surgida durante seus 11 anos como Agente de Prevenção Voluntária de doenças sexualmente transmissiveis, Hepatites e Tuberculose com travestis e mulheres trans na prostituição, em Santos, litoral de São Paulo. 

"O trabalho propõe uma reflexão", diz Renata. "Para que nós possamos entender que se trata de uma construção social, e que ninguém passou ileso por essa estrutura. Tentamos saber 'qual é o grau da transfobia em que você se encontra? Qual é a imagem da travesti e da pessoa trans que nós ainda precisamos descontruir?'", questiona. "Como digo no espetáculo: o meu corpo veio antes de mim, sem eu pedir, ele é mais velho do que eu. Quando eu assumo esse corpo, ele vem incrustrado com toda uma construção social, criminal, patológica, sexualizante que é ser uma pessoa trans, uma pessoa travesti", argumenta.

É sempre bom lembrar de alguns fatos históricos que a atriz recupera na peça, como a política de extermínio das travestis brasileiras pelo Estado brasileiro, com a aprovação e a cumplicidade da sociedade brasileira, na década de 1980, com a chegada da AIDS. "Historicamente nós, as travestis, somos perseguidas, e não só no Brasil, teve Hitler, fomos queimadas, temos história. Mas não temos memória, porque ela foi apagada. Com a chegada da AIDS, como digo no espetáculo, se a 'peste' é gay, a mãe dela é a travesti", diz. "Nós éramos presas por atentado violento ao pudor, libertinagem, vadiagem, atentado aos bons costumes, e, com a chegada da AIDS, começamos a ser presas por 'crime de contato venéreo'. Ou seja, nos prendiam porque acreditavam que nossos corpos eram os que transmitiam o HIV", lembra.

"É uma construção social muito forte, todo mundo acredita nela, porque fomos ensinados. E quando digo ensinado é quando você passa de carro [perto de uma travesti] ou de moto. Costumo dizer que conhecemos as pessoas travestis 'recortadas'. Quando passamos, não paramos para falar com elas, porque 'elas são perigosas e violentas'. É nessa fração de segundos que nossa história é construída, porque depende de quem nos olha, meu corpo já vem com bula, currículo, a pessoa já 'sabe' quem eu sou, o que eu sou, mas, principalmente, o que eu fui", afirma a atriz. 

Sobre a decisão de incorporar ostensivamente a palavra "travesti" em seu solo, e não a de mulher trans, Renata conta que se trata de uma escolha "política". "A travesti é uma identidade latino-americana, eu sou brasileira... Ser travesti é tão ruim que nem eu mesma queria... Hoje é um ato político meu se colocar nesse lugar. Eu sou uma travesti", diz. "É um desejo utópico talvez de limpar essa palavra que é tão mal vista, mal falada, muitas pessoas têm dó, pena ou nojo de mim antes mesmo de me conhecer", argumenta. "É por isso que a palavra 'travesti' brilha tanto e é tão falada na minha peça; para que as pessoas consigam entrar dentro dela e desconstruí-la. Travesti é uma identidade feminina que sofre retaliações. A transfobia é tão estrutural que atinge quem está à nossa volta, e acontece em todos os âmbitos sociais", sublinha a performer.

A temporada de Renata Carvalho em Paris acontece numa parceria do Festival de Outono com a bolsa AFIELD, que a atriz ganhou com o projeto 'Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart)'. Durante o período, ela se encontrou com diversas lideranças brasileiras da comunidade trans e travesti na França. "Tem sido um encontro comigo mesma", diz. "Elas vieram nessa diáspora travesti, fugindo do Brasil, fugindo da violência, das expulsões, do afestamento familiar", reflete Renata, que  foi expulsa de casa por ser transsexual ("como 90% das travestis o são no Brasil"), trabalhou como prostituta, e fez bicos num salão, enquanto desenvolvia sua carreira no teatro, que só foi assumir formalmente em 2018. 

"Aqui elas conseguem ter uma vida um pouco mais digna, algumas. A Europa, também não podemos dizer que seja fácil. Falar, saber, conhecer essa história, reverenciar essa história, reverenciar as que vieram antes, que abriram caminho, que pavimentaram a pista por onde ando hoje e saber que eu sou operária e também pavimento, porque, futuramente, eu também serei uma transcestralidade para alguém, por isso que eu sou atriz. Eu trabalho para a travesti que está nascendo hoje e que nem sabe ainda que é travesti. Mas que quando ela tiver o seu percebimento travesti, que ela não precise cair na prostituição compulsória, que ela não seja expulsa de casa, que ela tenha direito à educação, à saúde, ao afeto, ao amor", conclui.

O espetáculo "Manifesto Transpofágico" fica em cartaz até 25 de setembro dentro da programação do Festival de Outono de Paris.