Sem abastecimento ou irrigação, nordestinos sofrem com a seca ao lado do rio São Francisco

Carlos Madeiro
Do UOL, em Pão de Açúcar (AL)

Morar ao lado do rio São Francisco deveria representar garantia de água para as comunidades ribeirinhas mesmo em época de seca no Nordeste. Mas não é essa a realidade das cidades banhadas pelo principal rio que corta o semiárido nordestino. O UOL visitou cidades cortadas pelo Velho Chico --como é conhecido o rio-- em quatro Estados e encontrou histórias semelhantes às de quem vive a quilômetros de distância do São Francisco.

O problema, segundo os sertanejos, está na fata de estrutura de abastecimento e quase completa ausência de projetos de irrigação.

Em Pão de Açúcar (AL), o calor de 40ºC em pleno mês de maio parece ferver o chão. Considerada pelos meteorologistas como uma das três cidades mais quentes do Nordeste, o município é um dos que decretou emergência pela estiagem e sofre com a morte do gado e perda de produção.

A menos de 500 metros do rio, comunidades rurais sofrem com a seca como se não houvesse uma imensidão de água ao lado. Tudo porque a água do rio nunca chegou até eles, que são obrigados a irem a pé ou em carros-de-boi buscar a água no Velho Chico.

Na fazenda Abaiti, a situação é crítica e há registro de morte de animais. “Não tem nem comida para os bichos, nem água para irrigar nada. Já perdi um animal por conta dessa seca, que nunca vi igual”, conta Luís Carlos dos Santos, 80, alegando que não recebe água de carros-pipa.

Segundo o produtor, por conta da falta de água às margens do São Francisco, a produção de leite de seu rebanho caiu pela metade. “Desde setembro não chove aqui. Tirava 200 litros de leite, agora só tiro cem. Para piorar, o preço de tudo subiu e estamos gastando mais. Não sei por quanto tempo vamos suportar essa situação.”

O pecuarista José Vicente Gomes, 68, também reclama da falta de estrutura. "Não tem comida para dar ao gado. Não adianta de nada o rio aqui do lado, sem água na torneira. Ninguém plantou nada esse ano pela seca.”

Revolta na Bahia

Em Glória (BA), os moradores se mostram revoltados com a situação. Na casa de Maria São Pedro não há abastecimento de água nem energia elétrica. “Aqui a gente acorda e vê esse rio cheio de água e vê o esquecimento em que vivemos. Nunca chegaram para trazer um copo de água desse rio pra a gente”, afirma a moradora, que vive a menos de 5 km do rio.

Para fazer a comida, Maria é obrigada a retirar madeira da caatinga para fazer o fogo. “Luz aqui, só a do lampião. Já cansei de ir pedir na prefeitura, na Coelba (Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia) para que trouxessem a energia para cá, mas nada.”

Uma moradora que não quis se identificar dispara: “Eu quero que algum político venha aqui nessa eleição para ele ver. Só sabem vir aqui pedir voto, mas esse ano vou expulsar eles daqui na espingarda. Não vou votar em safado nenhum”. “Não digo meu nome, nem deixo tirar foto. Não muda nada, pra que vou deixar vocês virem aqui ganhar também nas costas da gente?”, reclama.

Para o engenheiro agrônomo Vilibaldo Pina de Albuquerque, o Nordeste é carente de projetos de sustentabilidade, o que faz com que os sertanejos sofram com a seca mesmo ao lado do rio. "Nossa região passou muito tempo sendo enganada pela classe política. Hoje ainda é enganada, embora menos. A solução para o Nordeste passa por irrigação e assistência técnica. Se o rio São Francisco, aqui do lado, pode abastecer as comunidades com a transposição por que não pode irrigar áreas do lado dele? O problema é que é muito discurso e pouca ação", afirma Albuquerque, que também é produtor e mora no sertão de Alagoas.

Mapa mostra as cidades visitadas pelo UOL em quatro Estados

  • Arte UOL

Ministério cita ações na região

Em nota, a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), do Ministério da Integração Nacional, informou ao UOL que mantém 25 perímetros de irrigação instalados ao longo do vale do São Francisco, que ocupam 139 mil hectares (cada hectare equivale a dez mil m²) de área irrigada. Seguindo a companhia, devido aos projetos, o sertão do Nordeste tem se destacado em produção de fruticultura. A nota não cita futuros investimentos na área.

Sobre o abastecimento da população ribeirinha, a Codevasf disse que existe um programa --o Programa de Revitalização das Bacias Hidrográficas do São Francisco e do Parnaíba-- que foi incorporado no "Água para Todos” e que já faz investimentos na região. Segundo a Codevasf, o objetivo é "levar água de boa qualidade à população residente em comunidades rurais localizadas até 15 km da calha do rio São Francisco".

Entre as ações realizadas nos últimos anos, e citadas pela Codevasf, estão a instalação de 302 poços, construção de 7.945 cisternas de placa e implantação de sistemas simplificados de tratamento e abastecimento de água em 410 comunidades rurais. Nessas ações, a companhia informou que investiu mais de R$ 310 milhões entre 2007 e 2011.

Obras de transposição abandonadas

O governo federal tem em andamento um ambicioso e bilionário projeto de transposição do São Francisco. A obra, iniciada em 2007 durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, contempla a construção de 720 quilômetros de canais para irrigar uma extensa região pobre e árida do Nordeste. Nos últimos anos, porém, o andamento do projeto estava quase paralisado.

Em fevereiro deste ano, a presidente Dilma Rousseff disse que o projeto de transposição passou por uma avaliação durante o primeiro ano do seu governo e que a "situação hoje é de retomada das obras".

Dilma visitou trechos do projeto em Pernambuco e Ceará no início de fevereiro, mas a visita ao município de Missão Velha (CE) foi retirada do roteiro porque as obras estavam abandonadas.

"A situação hoje é de retomada das obras, algumas já em ritmo normal e outras sendo reiniciadas em nove dos 14 lotes que compõem os eixos leste e norte. Entregaremos o trecho da captação no São Francisco até a Barragem de Areias, em Pernambuco, no final deste ano e outros quatro trechos até 2014. O último, no eixo norte, será entregue em 2015", afirmou.

De acordo com a presidente, ao longo de 2011, o Ministério da Integração Nacional teve o papel de renegociar os contratos do projeto e definir um modelo de monitoramento.

"Agora, queremos resultados e cumprimento dos prazos. Vou cobrar do ministro, que vai cobrar de todos os funcionários de seu ministério e todos nós, juntos, vamos cobrar das empresas privadas e do Exército, que estão executando as obras", afirmou a presidente, em referência ao ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho. 

Nesta terça-feira (22), Bezerra afirmou que, a partir de junho, serão licitados seis lotes de obras remanescentes da transposição. (Com informações do Valor Online)

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