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A região mexicana que acredita ser protegida por ETs

BBC Mundo
Imagem: BBC Mundo

Juan Paullier

Da BBC Mundo, em Tampico (México)

15/04/2015 16h28

Sentado num sofá de uma cafeteria simples de Ciudad Madero, um homem me convida a meditar para ver óvnis.

A televisão exibe Bob Marley cantando "I Shot the Sheriff" e, atrás do balcão, uma mulher prepara um frappuccino.

A cidade fica no violento Estado de Tamaulipas, nordeste do México, e muitos acreditam que os extraterrestres passaram décadas a protegendo de furacões.

Isto porque, quando os furacões que ocorrem na região avançam com força até a costa, onde fica a cidade, eles parariam de forma abrupta e misteriosa, mudando de direção, de acordo com os habitantes mais crentes.

Moradores dizem que já viram os alienígenas, outros afirmam que há uma base submarina a cerca de 40 quilômetros da costa e que já viram suas naves, esferas, triângulos e luzes.

E todos conversam abertamente sobre o assunto.

O engenheiro civil Fernando Alonso Gallardo, 68, aposentado da petroleira estatal Pemex e empresário, tem o rosto queimado pelo sol da praia local, Miramar, uma faixa de areia de dez quilômetros.

Pelas janelas do restaurante de Gallardo, o El Mexicano, que fica na praia, entra uma brisa do Golfo do México.

Gallardo conta sua história à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC. A dele, como a de muitos em Ciudad Madero, envolve avistamentos de objetos voadores não identificados.

Em 1933, quando os furacões ainda não tinham nome, um da categoria 5 chegou a Tampico, onde Gallardo nasceu, perto de Ciudad Madero. O furacão destruiu o restaurante de seu pai, mas a família construiu outro.

Em 1955, o furacão Hilda, que inundou três quartos da cidade e deixou 20 mil desabrigados, voltou a atingir a região.

"Acho que nesta época não havia extraterrestres, se houvesse, não teria tantos desastres", diz Gallardo.

Furacões também ocorreram em 1947, 1951 e 1966. Mas, logo, as tempestades pararam de atingir a região.

Investigadores acreditam que o verdadeiro motivo do desvio dos furacões é a presença de correntes de água fria na área. Mas, nas vizinhas Tampico e Ciudad Madero, ninguém ignora a crença de que algo sobrenatural defenderia a região.

Avistamentos

Entre o século 19 e os anos 1970, quando as pessoas viam objetos luminosos no céu, diziam que eram bruxas.

Em 1967, foi construído um monumento à Virgem de Carmen --padroeira do mar e dos marinheiros-- no local por onde passam pescadores quando deixam o rio Pánuco, que divide os Estados de Tamaulipas e Veracruz.

Muitos viam aí a explicação para o desaparecimento de furacões.

Até hoje, é uma tradição que marinheiros façam o sinal da cruz diante da estátua e capitães buzinem suas embarcações, disse Marco Flores, que desde 1995 é cronista oficial do governo da cidade de Tampico.

A teoria marciana chegou pouco depois.

Segundo Flores, ela foi trazida por um homem da Cidade do México que chegou a Tampico por volta dos anos 1970 a trabalho e garantiu que, mais do que proteger a cidade, os extraterrestres que haviam entrado em contato com ele guardavam suas bases submarinas.

Alonso Gallardo concorda. "Não é um esforço para proteger a cidade, é um esforço para proteger a cidade onde eles vivem, porque eles encontraram uma maneira de estar lá."

Gallardo diz ter visto seu primeiro óvni em 1983: um disco de 60 metros de diâmetro com luzes amareladas. Isso ocorreu no final do calçadão que serve para separar a água verde do Golfo do México da água escura do rio Pánuco.

Ali, dizem os que acreditam, é o melhor lugar para se ver os objetos.

'Falta de inteligência'

O ponto de encontro dos "crentes" era um café no Walmart, mas a mulher que os atendia não parecia confortável com o tópico da conversa. Assim, os membros da Associação de Investigação Científica Óvni de Tampico se mudaram para o restaurante Bambino de Ciudad Madero.

Ali, cada um espera para narrar suas experiências.

Na cabeceira da mesa, Eduardo Ortiz Anguiano, 83 anos, fala sobre seu livro publicado no ano passado, "De Óvnis, Fantasmas e Outros Eventos Extraordinários".

Durante três anos, ele coletou mais de 100 depoimentos e se convenceu: "Duvidar da existência de óvnis é não ter inteligência".

E muitos concordam. Eva Martínez diz que a presença de extraterrestres lhe dá paz.

José Luis Cárdenas tem várias fotografias nas quais se vê luzes com formas estranhas - luzes que não estão no céu no momento da foto, mas que aparecem no visor da câmera, segundo ele.

"Se os seres que nos visitam não nos machucam, então estão nos protegendo, estão fazendo algo por nós. E é assim que temos que ver as coisas", disse.

A última vez que um furacão que se dirigia para a área de Tampico se desviou foi em 2013.

Naquele ano, autoridades locais colocaram o busto de um marciano na praia de Miramar (que foi roubado logo depois) e declararam que na última terça-feira de outubro seria celebrado o Dia do Marciano.

"A explicação que não podemos dar cientificamente damos de maneira mágica. As pessoas desta região têm um pensamento mágico", diz Flores, o cronista de Tampico.

'Deus gosta de Tampico'

No sofá da cafeteria de Ciudad Madero, Juan Carlos Ramón López Díaz, presidente da associação de pesquisadores de óvnis, pede para que eu feche os olhos e mantenha a mente tranquila.

Ele me convida a ver um objeto luminoso no qual posso entrar, se eu quiser.

Atrás do balcão, ligam o liquidificador. Abro os olhos. Apesar da ajuda de López Díaz, não vi nada.