PUBLICIDADE
Topo

Morte do adolescente Trayvon Martin levanta discussão sobre os novos conflitos étnicos nos EUA

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

De Boston

05/04/2012 06h00

O homicídio do adolescente negro de 17 anos, morto por um vigia voluntário, filho de uma colombiana e de um americano, gerou um debate nacional nos Estados Unidos. Difundido pela mídia social, o drama repercute há várias semanas nas páginas dos jornais e nos debates das rádios e televisões americanas.

Deixando de lado seus pontos polêmicos, a morte de Trayvon Martin, ocorre na sequência de alguns fatos que não são contestados pela polícia ou pelos advogados do suspeito do crime, George Zimmerman. Membro de um grupo de voluntários autorizado pela polícia, Zimmerman não podia circular armado enquanto estivesse vigiando seu quarteirão num condomínio fechado de classe média.

Ao ver Martin, que voltava para a casa do pai, achou-o suspeito e telefonou para a polícia. Avisado que não devia mais seguir o “suspeito” porque a rádio patrulha já estava chegando, Zimmerman desobedeceu a orientação, atracou-se com Martin e matou-o com um tiro.

Como alguns outros Estados americanos, a Flórida possui uma legislação que amplia o conceito de legitima de defesa. Assim, Zimmerman pode retornar livre para sua casa, após alegar que se sentiu ameaçado, embora Martin estivesse desarmado. Desse modo, o primeiro questionamento da opinião pública americana está ligado à revogação dessa legislação.

Mas há outros fatos específicos à Flórida, um dos Estados escravocratas derrotados na Guerra da Secessão (relembrada atualmente nas celebrações de seu 150° aniversário), onde leis de discriminação racial vigoraram até os anos 1960.

A área onde moram Zimmerman e o pai de Martin sofre as consequências do desabamento da especulação imobiliária. Casas fechadas ou semiabandonadas aumentam a sensação de insegurança dos moradores e estimulam a criação de associações como a “Neighborhood Watch”.

Na realidade, a Flórida, como outras regiões do Sul e do Oeste, registra tensões entre os latinos, que se tornaram a maior minoria americana, e os negros. Na área onde ocorreu o homicídio de Trayvon Martin, a porcentagem de latinos é de 17% e a de negros 11% dos habitantes. Vindos em maioria do México e da América Central, esses latinos, segundo as sondagens, são mais hostis aos negros que os brancos americanos.

Em um artigo no jornal “The New York Times” sobre a morte de Trayvon Martin, a jornalista e especialista da história da imigração Isabel Wilkerson adverte sobre a grande tragédia americana do século passado, quando os imigrantes da Europa Central começaram a hostilizar os migrantes negros do Sul, seus concorrentes nos empregos das indústrias do Norte. Para ela, a situação do antagonismo atual entre latinos e negros é menos grave. Mas o drama da Flórida demonstra que o problema ainda está longe de ser resolvido. 

Vídeo policial em caso Trayvon Martin mostra vigia ileso