PUBLICIDADE
Topo

Gerard Depardieu e a política econômica francesa

O presidente da Rússia, Vladimir Putin (direita), cumprimenta o ator francês Gerard Depardieu - Mikhail Klimentyev/AFP
O presidente da Rússia, Vladimir Putin (direita), cumprimenta o ator francês Gerard Depardieu Imagem: Mikhail Klimentyev/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

07/01/2013 15h18

O debate sobre a política econômica do governo Hollande tomou um lado burlesco com a decisão do ator Gerard Depardieu de sair do país para escapar das altas alíquotas do imposto de renda francês. Primeiro houve o anúncio de sua mudança para a Bélgica e de sua intenção de devolver seu passaporte francês às autoridades. Depois, ele fez gestões junto à Rússia, foi recebido pelo presidente Putin e ganhou um passaporte russo. No embalo do noticiário, a atriz Brigitte Bardot disse que também pensava em se mudar para a Rússia. Embora a bronca de Bardot ---célebre defensora dos animais-- tenha a ver com a decisão da Justiça de sacrificar duas elefantas doentes de um circo, a informação se adicionou ao noticiário sobre a mudança de celebridades e empresários irritados com o governo Hollande.

Depardieu é um ator muito popular na França, Bélgica, Rússia e outros países europeus. Seu papel em alguns grandes filmes franceses e, sobretudo, sua interpretação como Asterix --o herói francês das revistas em quadrinhos-- o transformaram num símbolo nacional. Sua escolha de abandonar a França suscitou reações contrastadas. A foto de seu encontro com Putin e sua declaração de que a Rússia era “uma grande democracia” tornou a atitude de Depardieu antipática a todos os que denunciam o autoritarismo do presidente russo.

Gérard Depardieu recebe passaporte russo

Mas houve também reações com relação à Bélgica, onde Depardieu --como outros franceses em exílio fiscal-- deve instalar sua residência permanente. De imediato, o presidente Hollande declarou que a convenção fiscal franco-belga iria ser revista para evitar a evasão de contribuintes franceses. De uma maneira mais geral, o tema da harmonização fiscal entre os países da União Europeia entrou novamente em pauta. Tanto o governo francês como o governo belga temem que as mudanças de residência fiscal de certas personalidades francesas seja apenas uma etapa para o seu domicílio definitivo em Mônaco ou na Suíça. Integrados à cultura e à economia do continente sem fazer parte da União Europeia, os dois países têm um regime fiscal muito mais generoso que o dos outros países europeus.

Para além das peripécias de Gerard Depardieu, há uma medida recente do governo Hollande que polariza as críticas: a alíquota de 75% de imposto de renda sobre os contribuintes detentores de altos rendimentos. Instaurado por Hollande depois de ter sido anunciado durante a campanha eleitoral, o imposto foi julgado ilegal pela Corte Constitucional francesa. Agora, está sendo reestudado pelo governo.

Porém, as opiniões desencontradas dos ministros socialistas tem gerado controvérsias sobre o mérito desse imposto que, no final das contas, adicionaria apenas 210 milhões de euros anuais ao Tesouro Público. Num editorial bastante duro, o jornal parisiense "Le Monde", apesar de sua proximidade política com os socialistas, deu o seu recado. “François Hollande achou que estava sendo esperto ao propor, de repente, no auge da campanha eleitoral, tributar em 75% os mais altos rendimentos... Alguns meses mais tarde, esta medida simbólica revelou-se desastrosa”.

Também posicionado numa linha política próxima dos socialistas franceses, o diário londrino "The Guardian" não deixou por menos e criticou o governo Hollande: “Mesmo sendo fortuito, o êxodo [das celebridades] dá má impressão. Mostra um governo sem rumo e um presidente hesitante”.