O referendo britânico e o assassinato da parlamentar pró-União Europeia

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Russell Boyce/Reuters

    1º.jun.2016 - Ilustração da cédula de votação para o referendo que irá decidir, em 23 de junho, a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia

    1º.jun.2016 - Ilustração da cédula de votação para o referendo que irá decidir, em 23 de junho, a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia

O assassinato da parlamentar Jo Cox traumatiza o Reino Unido e pode mudar os rumos do referendo sobre a saída do país da União Europeia (EU), o Brexit.

Na sequência, o primeiro-ministro, David Cameron, a pedido do líder trabalhista, Jeremy Corbyn, convocou uma sessão extraordinária do Parlamento britânico na próxima segunda-feira (20) para homenagear Jo Cox. Militante pró-União Europeia e decidida defensora dos imigrantes, Jo Cox se destacava no Partido Trabalhista e no Parlamento.

Num gesto de solidariedade com os trabalhistas, o Partido Conservador anunciou que não apresentará candidato contra o representante trabalhista na eleição parlamentar para substituir Jo Cox na circunscrição onde ela havia sido eleita.

Embora a polícia britânica classifique o caso como "um ato isolado" e não tenha se pronunciado sobre suas motivações políticas, a mídia britânica e norte-americana reuniu indícios mostrando que o assassino de Jo Cox, talvez meio desequilibrado, teve ligações com grupos anti-europeus e racistas de extrema-direita.

Além de aparecer como um raro homicídio político vitimando um parlamentar, a morte de Jo Cox foi ainda tornada mais trágica pela sanha de seu assassino, que, depois de baleá-la, esfaqueou-a várias vezes. O drama acontece a uma altura em que Nigel Farage, líder do partido anti-europeu UKIP, assume um tom cada vez mais xenófobo.

Na última semana, o site do "Financial Times", que reúne o conjunto de pesquisas sobre o Brexit, passou a indicar a vitória do campo anti-europeu por um "reduzido favoritismo". Mas a maioria dos observadores estima que a emoção causada pelo assassinato de Jo Cox motivará os abstencionistas e poderá dar uma vitória aos pró-europeus no referendo da próxima quinta-feira.

Em todo o caso, as bolsas europeias, a libra esterlina e os títulos de rendimento fixo alemães subiram nesta sexta-feira (17) com as notícias mais favoráveis para os partidários da permanência na UE.

Afora as ameaças que a radicalização da campanha do referendo faz pesar sobre a vida política britânica, o Brexit poderá colocar em questão a unidade do país. Como é sabido, os escoceses são majoritariamente pró-europeus. Um artigo do "New York Times" observa ainda que os eleitores da Irlanda do Norte, nação constitutiva do Reino Unido, ao mesmo título que a Escócia, também são hostis ao Brexit.

Na circunstância, a eventual saída do Reino Unido da UE relançará o movimento independentista escocês, derrotado no referendo de setembro de 2014, e atrapalhará a política de integração entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda iniciada em 1998, depois de um longo e sangrento conflito opondo católicos e protestantes.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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