Quais são os fundamentos do mau humor do eleitor americano?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Noah Berger/Reuters

    Protesto contra Donald Trump na Califórnia

    Protesto contra Donald Trump na Califórnia

Na revista New Yorker, uma reportagem bem amarrada de Jill Lepore sobre as convenções dos republicanos (em Cleveland) e dos democratas (na Filadélfia) descreve a radicalização que envolve as presidenciais americanas.

Reproduzindo declarações de partidários mais irascíveis de Trump e de Hillary em suas respectivas convenções partidárias, Jill Lepore conclui: "Metade das pessoas pensa que sabe como a outra metade vive e a considera como sua inimiga".

Nos últimos dias o quadro mudou na medida em que Hillary consolida sua imagem de candidata moderada capaz de atrair parte dos eleitores republicanos insatisfeitos com o radicalismo de Trump. Na circunstância, agregando variáveis mais completas do que as simples sondagens, uma análise recente da University of Virginia prevê uma vitória arrasadora de Hillary Clinton na eleição de novembro. 

O coordenador do estudo faz, entretanto, uma ressalva sobre as incertezas que pairam sobre o escrutínio: "Trump … é (um candidato) tão atípico ou aberrante que muitos modelos de previsão eleitoral concebidos pelos cientistas políticos podem tornar-se incapazes de projetar os resultados da eleição".

Em vários países da Europa Ocidental, líderes partidários "atípicos" ou "aberrantes", também capitalizam a insatisfação de eleitores que se sentem abandonados por seus governos e seus líderes políticos. Resta que os indicadores econômicos dos Estados Unidos são bem melhores do que os da maioria dos países europeus, onde grassa o desemprego e a recessão.

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Por que, então, há tanta gente bronqueada entre os democratas que apoiaram Bernie Sanders e os republicanos favoráveis a Trump? Intitulado "Por que os americanos estão tão furiosos a despeito da força da economia americana", um estudo de Michael Green na Harvard Business Reviewaborda o assunto. Green parte de uma constatação inicial: a taxa de desemprego está abaixo de 5%, a economia está crescendo consistentemente e, considerando-se a renda per capita, os Estados Unidos são um dos mais países mais ricos do mundo.

Para ele, a chave para entender a zanga dos americanos está nos indicadores do Índice de Progresso Social (SPI). O SPI, que tem Green entre seus formuladores, mede a satisfação das necessidades sociais e meio ambientais dos cidadãos de diversos países (na América Latina há delegações do SPI no Brasil, no Paraguai, Chile, Costa Rica, Colômbia, Peru e El Salvador).

Na lista dos 20 primeiros países do SPI, a performance americana é bastante medíocre, situando-se em 19° lugar. Atrás, notadamente, do Canadá, Reino Unido, Japão, Alemanha, Espanha e França (nesta ordem, o Brasil fica em 46° lugar). Junto com a China, a Rússia e a Arábia Saudita, os EUA compõem o grupo de países que, relativamente à riqueza nacional, proporcionam menos bem-estar aos seus cidadãos.

Assim, apesar das despesas nacionais em saúde pública, os EUA se situam em 68º lugar no tópico da saúde e do bem-estar, devido ao grande número de obesos, mas também por causa dos suicídios e das mortes precoces devido ao câncer e às doenças cardíacas.  No item do conhecimento básico, os americanos estão no 40º lugar mundial por causa do absenteísmo escolar das crianças.

Sem explicar tudo, o estudo de Michael Green ajuda a compreender a bronca atual que tumultua a vida político partidária americana.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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