A União Europeia organiza o pós-Brexit

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Bundesregierung/Guido Bergmann/Divulgação

    A chanceler (premiê) alemã (esq), Angela Merkel, conversa com o presidente francês (dir), François Hollande, e o premiê italiano, Matteo Renzi (centro), em Ventotene, na Itália

    A chanceler (premiê) alemã (esq), Angela Merkel, conversa com o presidente francês (dir), François Hollande, e o premiê italiano, Matteo Renzi (centro), em Ventotene, na Itália

Nesta segunda-feira (22), François Hollande, Matteo Renzi e Angela Merkel se reuniram em Ventotene, pequena ilha italiana ao largo do golfo de Nápoles. Dirigindo a França, a Itália e a Alemanha, principais fundadores da União Europeia (UE) em 1957 e, agora, os maiores países da UE pós-Brexit, os três líderes devem conversar sobre os erros passados para tentar acertar o futuro da Europa.

Hollande, Renzi e Merkel já haviam se encontrado em Berlim em junho e estarão juntos no dia 16 de setembro, na conferência de cúpula extraordinária em Bratislava (capital da Eslováquia). Será a primeira vez que 27 membros da UE estarão reunidos depois do voto do Brexit. Como o Reino Unido, que não foi convidado a Bratislava, ainda não pediu o seu desligamento da UE, a cúpula de setembro terá oficialmente um caráter "informal".

Tais nuances compõem a questão de fundo da crise atual. A notícia recentemente veiculada pelo "Sunday Times", segundo a qual, o Brexit só se tornará efetivo no final de 2019, demonstra a dimensão do problema.

Segundo o jornal londrino, o governo da primeira-ministra Theresa May precisa de mais tempo para preparar e organizar a equipe de especialistas britânicos que negociará o Brexit com os altos funcionários da UE.

Além do mais, Londres prefere aguardar o resultado das presidenciais francesas (abril-maio de 2017) e das eleições federais alemãs (agosto-outubro de 2017). Na esperança, talvez, que eventuais novos dirigentes franceses e alemães deem mais moleza para os interesses britânicos nas complexas negociações do Brexit.

Renzi afirmou que o Brexit representa uma "uma derrota política" para a Europa. Junto com Hollande, ele propõe uma intensificação dos investimentos na segurança e Defesa da UE, prevendo notadamente a extensão da polícia de fronteiras para reforçar as fronteiras externas da União.

Hollande deseja também dobrar os investimentos europeus nos transportes não poluentes, na modernização informática e na pesquisa. Paris, Roma e Berlim desejam também relançar a harmonização fiscal e social no seio da zona euro.

Porém, na Alemanha, onde a decepção com o voto britânico no Brexit foi talvez mais forte do que na França e na Itália, Merkel tem outras preocupações. Defensora das medidas de rigor econômico que prevalecem atualmente na União, a chefe do governo alemão opõe-se às pressões francesas e italianas em favor de uma flexibilização orçamentária na zona euro.

Na realidade, tendo sido totalmente imprevisto o Brexit gerou, tanto no Reino Unido quanto na EU, uma completa imprevisibilidade.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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