Populismo anti-europeu sofre revés com atrasos e tensões do Brexit

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

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As dificuldades do Reino Unido para a efetivação da saída da União Europeia estão mudando as perspectivas políticas: mesmo para setores mais anti-europeus de outros países do continente, o Brexit começa a aparecer como um exemplo a não ser seguido.

Em Londres, a crise política do Brexit agravou-se na semana passada com a demissão do embaixador britânico junto à UE, sir Ivan Rogers. Diplomata competente, respeitado por seus pares e com grande experiência nos assuntos europeus, Rogers teria informado seu governo que a negociação visando a estabelecer novas relações econômicas e políticas com os 27 países da UE poderia durar dez anos.

A notícia vazou na imprensa britânica, irritando o governo britânico e levando à demissão de Rogers. Os setores pró-Brexit se congratularam com a saída do embaixador. Mas os observadores consideram que a demissão de Rogers fragiliza a primeira-ministra Theresa May em Bruxelas, na medida em que o novo representante britânico nas negociações do Brexit será menos experiente que sir Ivan Rogers.

Ontem (10), os dirigentes da Bolsa de Londres advertiram que se as negociações com Bruxelas desandarem, o Brexit pode ter um impacto de uma "dimensão inimaginável", ameaçando mais de 230 mil empregos no Reino Unido, segundo uma auditoria feita pela firma Ernst & Young.

As tensões pós-Brexit, que começam a dividir também o Partido Conservador britânico, puseram água na fervura anti-UE reinante noutros países europeus. Na Itália, Beppe Grillo, líder do partido anti-europeu e anti-imigração Movimento Cinco Estrelas (M5S), tentou dissociar-se do partido UKIP, do anti-europeu britânico Neil Farage, principal propagandista e vencedor do Brexit.

Para tentar moderar seu perfil anti-europeu, rejeitado por boa parte do eleitorado italiano, Beppe Grillo, procurou associar seus deputados no Parlamento Europeu ao grupo ALDE, formado pelos deputados pró-europeus liderados pelo ex-primeiro-ministro belga Guy Verhofstadt.

A manobra não deu certo. Mas deixou claro que os problemas do Brexit colocaram os setores anti-europeus mais exaltados na defensiva. Mais ainda, o Brexit arrefeceu o sentimento anti-UE no resto da Europa. 

De fato, num editorial publicado ontem (10) o "Le Monde" cita uma sondagem recente do instituto Win Gallup mostrando que em todos os estados-membros há uma maioria favorável à continuação da permanência na UE. No próprio Reino Unido a opinião mudou e, atualmente, o voto pró-Brexit só receberia 46% dos votos, contra os 52% obtidos no referendo de 23 de junho de 2016.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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