Pró-europeu e com experiência política, Macron não é Trump nem Doria

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Lionel Bonaventure/AFP

Alguns comentaristas no Brasil, nos Estados Unidos e no Reino Unido têm traçado paralelos entre a radicalização das eleições presidenciais na França, nos Estados Unidos e dos votos no referendo britânico sobre o Brexit. Outros comparam a vitória de Emmanuel Macron no primeiro turno à trajetória de Trump, de Marina Silva e até mesmo de João Doria.

Em primeiro lugar, Emmanuel Macron não é um estreante na política ou na administração pública. Formado na Ecole Nationale d"Administration (ENA), instituição de ensino público que diplomou três presidentes da França (inclusive o atual, François Hollande), sete primeiros-ministros e inúmeros altos funcionários e dirigentes de empresas privadas francesas e europeias, Macron trabalhou quatro anos na mais alta esfera da administração governamental, a Auditoria Geral das Finanças. Em 2008, ele se licencia da função pública e entra num banco de investimentos, o Rothschild & Cie.

Paralelamente, ele continuou próximo do Partido Socialista, ao qual se afiliara em 2002 e do qual se afastou em 2016, ao criar seu próprio partido, o En Marche! No meio tempo, Macron participou do governo de Hollande, ocupando notadamente o posto de ministro da Economia entre 2014 e 2016.

Em segundo lugar, o perfil partidário de En Marche! (EM) não é estranho à tradição política francesa. Na realidade, o EM se aparenta ao partido de direita liberal e laica União pela Democracia Francesa (UDF), de Giscard d"Estaing, presidente do país entre 1974 e 1981. Tanto o EM quanto a UDF pertencem à corrente ideológica e parlamentar centrista que os historiadores políticos denominam Orleanismo, cujas origens remontam ao século 19.

Em terceiro lugar, situando-se nos antípodas dos partidários do Brexit e do isolacionismo de Trump, Macron é decididamente pró-europeu. Mais ainda, seu programa de governo propõe um avanço na unificação europeia, através de convenções democráticas que debaterão em cada país membro as novas etapas do projeto europeu e da criação de um ministro de Finanças da zona euro.

Muito justamente, um líder socialista e pró-europeu francês, Pierre Moscovici, definiu o segundo turno das presidenciais como um "referendo sobre a Europa".   

Mas a reta final da campanha será difícil. Malgrado a previsão unanime de sua vitória no segundo turno por institutos de sondagens que acertaram em cheio no primeiro turno, Macron encara um eleitorado profundamente dividido. Basicamente, pobres,  desempregados e habitantes das zonas rurais votaram em Le Pen, enquanto o eleitorado mais afluente das zonas urbanas escolheu Macron.

Para ele, não se trata apenas de reconciliar o país em torno de sua candidatura. Trata-se, sobretudo, de garantir uma maioria favorável a seu governo nas eleições gerais legislativas que terão lugar logo na primeira quinzena de junho, um mês após o resultado do segundo turno das presidenciais.  

Macron e Le Pen disputarão 2° turno das eleições francesas

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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