Enquanto ataca Kim Jong-un, Trump faz ameaça ainda mais grave contra o Irã

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Timothy Clary/AFP

O primeiro discurso do presidente Donald Trump na ONU marcou época. Tanto pelas extravagâncias quanto pela belicosidade.

No capítulo das extravagâncias deve constar sua visão mercantil do sucesso. Assim, para salientar seu apreço pela instituição, Trump disse que construíra a Trump World Tower perto do edifício da ONU, como se as Nações Unidas tivessem como objetivo a valorização imobiliária da área vizinha à sua sede em Manhattan.

No mesmo tom, Trump declarou no almoço com os representantes africanos na ONU: "Tenho muitos amigos indo para os países de vocês para se enriquecerem'. Noutros momentos bizarros de seu discurso na Assembleia Geral da ONU, Trump elogiou um país que não existe, a "Nambia" (depois identificada como a Namíbia por seus assessores) e chamou o ditador da Coreia do Norte de "Rocket Man" (depois foi explicado que a piada era dirigida aos eleitores de Trump e não aos representantes das 193 nações que assistiam seu discurso na ONU). 

Ao lado da piada, a menção a Kim Jong-un foi completada pela ameaça aterradora que foi ao topo das chamadas midiáticas: a Coreia do Norte poderá ser "totalmente" destruída se não abandonar seus testes nucleares. Discursando pela primeira vez como secretário-geral da ONU, Antônio Guterres alertou: "conversa inflamável pode conduzir a mal-entendidos fatais".

Os especialistas apontaram outros perigos subjacentes à ameaça apocalíptica de Trump. Do ponto de vista militar, Kim Jong-un pode destruir Seul e boa parte da Coreia do Sul antes de ser posto fora de combate por um ataque americano.

Trump nem se preocupou em associar a ação diplomática da China para tentar resolver o impasse sobre a Coreia do Norte. Mas é certo que uma investida maciça americana contra um país que tem 1.400 km de fronteira com a China terá consequências imprevisíveis para o resto do mundo. 

Porém, o tópico mais grave da belicosidade de Trump concerne, segundo os especialistas, suas ameaças contra o Irã. Denunciando o Acordo Nuclear Iraniano assinado por seu país e a comunidade internacional depois de doze anos de negociações de permeio às presidências de Bush e Obama, Trump designou o Irã como seu principal inimigo no Oriente Médio. 

Sucede que o Acordo Nuclear com o Irã foi também negociado e endossado pelo Reino Unido, a França, a China, a Rússia, todos membros permanentes do Conselho de Segurança ONU, como também pela Alemanha. Todos esses países são favoráveis à manutenção do Acordo.

Trump irá assim contrariar seus princípios aliados ocidentais e agravar ainda mais suas relações com a Rússia e a China.  Numa conversa com jornalistas em Nova York, resumida por Roger Cohen no New York Times, o presidente da França, Emmanuel Macron, apontou outro risco.  O fim do Acordo Nuclear Iraniano criará no Oriente Médio uma situação parecida com o impasse norte-coreano: sem o enquadramento do Acordo e o diálogo com as grandes potências, o Irã se isolaria e incluiria armas nucleares em seu arsenal.

No contexto dos conflitos no Oriente Médio, o isolamento do Irã e a perspectiva de um conflito israelo-iraniano cria uma ameaça direta à Europa e à Rússia. Talvez seja esse o ponto mais inquietante do discurso de estreia de Trump na ONU.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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