As controvérsias sobre o censo demográfico americano

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Spencer Platt/Getty Images/AFP

Os recenseamentos demográficos sempre têm implicações políticas, como o demonstra a controvérsia sobre a inclusão do critério "cidadania" no censo 2020 que será realizado nos Estados Unidos. Tal critério existiu nos censos decenais do país entre 1890 e 1950 e se manteve nas pesquisas de amostragem domiciliar (análogas às PNADs brasileiras) enviadas cada ano a 3,5 milhões de residências.

Para os defensores da pergunta sobre a cidadania, incluída meio de supetão no formulário do censo a pedido do Ministério da Justiça do governo Trump, trata-se de uma medida necessária para evitar fraudes nas eleições americanas. Para seus críticos, o cálculo do número de imigrantes é alcançado por outros métodos e a inclusão do item sobre a cidadania terá consequências nocivas para o país.

De que se trata? A realização do censo decenal é um preceito inscrito na Constituição americana de 1787. É com base na soma de habitantes (tanto americanos como residentes estrangeiros) que é definido o número de deputados na Câmara dos Representantes. Acessoriamente, os números do censo também são utilizados para alocar bilhões de dólares de verbas federais para a saúde e a educação nos estados e cidades.

Segundo a maioria dos especialistas, no clima atual de perseguição aos imigrantes ilegais nos EUA, a resposta ao quesito "cidadania" será omitida ou falseada por muitos estrangeiros em situação irregular ou com título de residência temporária.

Consequentemente, a credibilidade do censo estará comprometida, causando um grave dano político e financeiro aos estados e cidades que contam com muitos imigrantes clandestinos chegados nos anos recentes ou a décadas. Para se ter uma ideia, calcula-se que haja atualmente nos Estados Unidos 11 milhões de imigrantes ilegais, correspondendo a 3,5% da população do país.

Procuradores Gerais de 18 estados -, liderados pela Califórnia que concentra um quarto dos imigrantes nos EUA e principal prejudicada com a eventual subestimação do número de residentes estrangeiros -, contestaram o novo questionário do censo nos tribunais federais.

Maura Healey, Procuradora Geral do Massachusetts, um dos estados que questionam a medida, declarou ao New York Times que se trata de uma tentativa "óbvia e ilegal da administração Trump" de sabotar a credibilidade do censo para "subestimar a população e por em risco as verbas federais para nosso estado e [nossas] cidades". Junto com a Califórnia, citada acima, o Texas e Nova York contam com cerca de 43% do total dos imigrantes nos Estados Unidos, a maioria deles latino-americanos.

No Washington Post, a historiadora Judith Giesberg observa que o novo questionário do censo do governo Trump terá resultados ambíguos para os republicanos. Por um lado, a subestimação do número de imigrantes pode ajudar os republicanos a manter o controle de comunidades onde os Latinos são numerosos. Por outro lado, o resultado do censo corre o risco de prejudicar o Texas, baluarte do partido republicano, registrando uma população estadual abaixo da esperada e diminuindo o número de seus deputados em Washington.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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