O grande fedor de Michigan

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Brett Carlsen/Getty Images/AFP

    26.jan.2016 - Morgan Walker, 5, moradora de Flint, no Michigan (EUA), faz exames para avaliar a quantidade de chumbo presente em seu sangue

    26.jan.2016 - Morgan Walker, 5, moradora de Flint, no Michigan (EUA), faz exames para avaliar a quantidade de chumbo presente em seu sangue

Na década de 1850, Londres, a maior cidade do mundo, ainda não tinha um sistema de coleta de esgoto. Os dejetos simplesmente escorriam para o rio Tâmisa, que era tão nojento quanto se pode imaginar. Mas os conservadores, incluindo a revista "The Economist" e o primeiro-ministro, eram contra qualquer iniciativa para remediar a situação. Afinal, tal esforço significaria maiores gastos para o governo e, eles insistiam, violariam a liberdade pessoal e o controle local.

Foi necessário o Grande Fedor de 1858, quando a fetidez tornou inutilizáveis as casas do Parlamento, para provocar uma ação.

Mas isso tudo é história antiga. Os políticos modernos, por mais conservadores que sejam, entendem que a saúde pública é um papel essencial do governo. Certo? Não, errado, como ilustra o desastre em Flint, no Estado de Michigan (centro-norte dos EUA).

O que sabemos até agora é que, em 2014, o gestor de emergências da cidade --nomeado por Rick Snyder, o governador republicano do Estado-- decidiu mudar para uma fonte de água insegura, contaminada por chumbo e outras substâncias, para economizar dinheiro. E está ficando cada vez mais claro que as autoridades estaduais sabiam que estavam prejudicando a saúde pública, colocando em risco as crianças, em particular, enquanto impediam a interferência de moradores e especialistas em saúde.

Esta história --os EUA no século 21, e não se pode confiar na água nem no que as autoridades dizem sobre ela-- seria motivo de terrível indignação mesmo que fosse um acidente ou um caso isolado de má política. Mas não é. Pelo contrário, o pesadelo em Flint reflete o ressurgimento na política norte-americana exatamente das mesmas atitudes que levaram ao Grande Fedor de Londres há mais de um século e meio.

Vamos retroceder um pouco e falar sobre o papel do governo em uma sociedade avançada.

No mundo moderno, grande parte dos gastos do governo vão para programas de seguridade social: coisas como a previdência social, programas de saúde, etc., que supostamente protegem os cidadãos dos infortúnios da vida. Tais gastos são tema de acirrado debate político, o que é compreensível. Os liberais querem ajudar os pobres e infelizes, os conservadores querem deixar que as pessoas guardem seu dinheiro suado, e não há uma resposta certa para esta discussão porque é uma questão de valores.

Deveria haver, entretanto, muito menos discussão sobre gastos naquilo que a Econ 101 chama de bens públicos: coisas que beneficiam a todos e não podem ser fornecidas pelo setor privado. Sim, podemos divergir sobre o tamanho exato das forças militares de que precisamos ou quão densa e bem mantida deve ser a malha rodoviária, mas você não deveria esperar controvérsia sobre gastar o suficiente para oferecer bens públicos como educação básica ou água potável.

Mas aconteceu uma coisa engraçada quando os conservadores linha-dura assumiram o governo de muitos Estados norte-americanos. Na verdade, não foi nada engraçado. Como se esperava, eles tentaram cortar os gastos em seguridade social para os pobres. Na verdade, muitos governos estaduais não gostam de gastar com os pobres, tanto que estão rejeitando a expansão do Medicaid, que não custaria nada para eles, porque é financiado pelo governo federal. Mas o que também vemos é uma extrema mesquinharia com os bens públicos.

É fácil dar exemplos. O Estado do Kansas, que ganhou manchetes com sua estratégia fracassada de cortar impostos na expectativa de um milagre econômico, tentou fechar a lacuna resultante no orçamento principalmente com cortes na educação. A Carolina do Norte também impôs cortes drásticos às escolas. E em Nova Jersey, o governador Chris Christie cancelou um túnel ferroviário extremamente necessário sob o rio Hudson.

Tampouco estamos falando sobre uns poucos casos. Os gastos em obras públicas como parcela da receita nacional caíram acentuadamente nos últimos anos, refletindo cortes feitos por governos estaduais e municipais que estão cada vez menos interessados em fornecer bens públicos para o futuro. Isso inclui cortes agudos em investimentos no abastecimento de água.

Então estamos apenas falando sobre as consequências da ideologia? A própria cidade de Flint não se encontrou na mira da austeridade por ser uma cidade pobre, de maioria afro-americana? Sim, isso definitivamente faz parte do que aconteceu --seria difícil imaginar algo semelhante em Grosse Pointe.

Mas na verdade não são histórias separadas. O que vemos em Flint é uma situação muito típica norte-americana de interação (literalmente) tóxica entre ideologia e raça, em que extremistas de um governo pequeno são empoderados pela sensação de grande número de eleitores de que o governo é simplesmente um prêmio para Aquelas Pessoas.

E agora? Snyder finalmente manifestou algum arrependimento, embora ainda esteja retendo grande parte da informação de que precisamos para compreender totalmente o que aconteceu. Enquanto isso, inevitavelmente, ouvimos falar que não devemos fazer da intoxicação em Flint uma questão partidária.

Mas não é possível entender o que aconteceu em Flint e o que acontecerá em muitos outros lugares, se as atuais tendências continuarem, sem compreender a ideologia que possibilitou o desastre.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

UOL Cursos Online

Todos os cursos