Donald Trump não é casualidade

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Andrew Harnik/AP

    Donald Trump e o governador de Nova Jersey, o republicano Chris Christie

    Donald Trump e o governador de Nova Jersey, o republicano Chris Christie

Republicanos da ordem dominante que estão horrorizados com a ascensão de Donald Trump talvez queiram tirar um minuto para se lembrar do ruído que se ouviu em todo o mundo --a questão que Marco Rubio não conseguiu parar de repetir em um debate crucial, expondo-se a um ridículo devastador e enviando sua campanha a uma espiral da morte.

Era assim: "Vamos acabar com essa ficção de que Barack Obama não sabe o que está fazendo. Ele sabe exatamente o que está fazendo". A clara implicação era de que todas as coisas ruins que os republicanos afirmam ter acontecido no governo Obama --em particular a suposta redução da estatura dos EUA no mundo-- foram consequência de um esforço deliberado para enfraquecer a nação.

Em outras palavras, o favorito do establishment para a nomeação republicana, o homem que a revista "Time" já colocou na capa sob o título "O salvador republicano", estava deliberadamente canalizando o estilo paranoico na política americana. Ele sugeria, embora timidamente, que o presidente em exercício é um traidor.

E agora o establishment está chocado ao ver um candidato que basicamente faz o mesmo jogo, mas sem a timidez, o candidato avassaladoramente melhor situado para a nomeação presidencial republicana. Por quê?

A verdade é que o caminho para o trumpismo começou há muito tempo, quando conservadores do movimento --guerreiros ideológicos da direita-- tomaram o controle do Partido Republicano. E foi realmente uma tomada completa. Ninguém que tente fazer carreira no partido ousa questionar qualquer aspecto da ideologia dominante, por medo de enfrentar não apenas desafios básicos, mas a excomunhão.

Podemos ver o poder continuado da ortodoxia no modo como todos os candidatos sobreviventes à nomeação republicana, incluindo Trump, propuseram obedientemente enormes cortes de impostos para os ricos, apesar de a grande maioria dos eleitores, incluindo muitos republicanos, desejar um aumento de impostos para os ricos.

Mas como um partido preso a uma ideologia basicamente impopular --ou de qualquer modo uma ideologia que os eleitores não aprovariam, se a conhecessem melhor-- ganha eleições? A ofuscação ajuda. Mas a demagogia e o apelo ao tribalismo ajudam mais. Mensagens raciais disfarçadas e sugestões de que os democratas são antiamericanos, senão traidores ativos, não são coisas que acontecem de vez em quando, são uma parte integral da estratégia política republicana.

Durante o governo Obama, os líderes republicanos elevaram muito o volume dessa estratégia (embora já fosse muito ruim durante o governo Clinton). Os republicanos do establishment em geral evitaram dizer com todas as palavras que o presidente era um socialista ateu islâmico queniano amigo de terroristas --mesmo que, como mostra a citação de Rubio, tenham chegado muito perto disso--, mas encorajaram tacitamente os que o faziam e aceitaram seu apoio. E agora estão pagando o preço.

Pois a suposição subjacente por trás da estratégia do establishment foi que os eleitores podiam ser enganados repetidamente: convencidos a votar nos republicanos por raiva contra Aquelas Pessoas, ignorados após a eleição enquanto o partido perseguia suas verdadeiras prioridades a favor dos plutocratas. Agora vem Trump, transformando os comentários discretos em gritos bem audíveis e dizendo à base que ela pode seguir a isca sem medo de engodo. E o establishment está sendo destruído pelo monstro que criou.

As coisas são muito diferentes do outro lado do corredor.

Eu ainda vejo às vezes pessoas que sugerem uma equivalência entre Trump e Bernie Sanders. Mas apesar de os dois estarem desafiando um establishment partidário esses establishments não são o mesmo. O Partido Democrata é, como dizem alguns cientistas políticos, uma "coalizão de grupos sociais", que vão da Planned Parenthood [organização para o planejamento familiar] a sindicatos de professores, mais que um monólito ideológico; não há nada comparável ao leque de instituições que impõem a pureza do outro lado.

De fato, o que o movimento Sanders, com suas exigências de pureza e desprezo pelo compromisso e os meios-termos, mais parece não é a insurgência de Trump, mas os ideólogos que tomaram o Partido Republicano, tornando-se o establishment que Trump desafia.

E sim, começamos a ver pistas nesse movimento da feiúra que há muito é o procedimento operacional padrão da direita: duros ataques pessoais a qualquer um que questione as premissas da campanha, uma quantidade maior de demagogia vinda da própria campanha. Compare as postagens no Twitter de Sanders e Hillary Clinton para entender o que estou dizendo.

Mas, voltando aos republicanos: vamos descartar essa ficção de que o fenômeno Trump representa uma espécie de intrusão imprevisível no curso normal da política republicana. Ao contrário, o partido passou décadas incentivando e explorando a mesma ira que hoje leva Trump à nomeação. Essa ira estava destinada a fugir do controle do establishment, cedo ou tarde.

Donald Trump não é uma casualidade. Seu partido sabia que viria. 

O que mais se ouve em um comício de Trump? "Saia daqui"

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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