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Após campanha fantasiosa, eleitores nos EUA descobrirão que não existe "fada do dente"

Pré-candidatos do Partido Republicano se preparam para debate - Sandy Huffaker/Getty Images/AFP
Pré-candidatos do Partido Republicano se preparam para debate Imagem: Sandy Huffaker/Getty Images/AFP

12/11/2015 06h01

Por mais que eu esteja perturbado pelas declarações de Donald Trump contra os imigrantes e contra o livre comércio, devo confessar que acho realmente interessante a estratégia de campanha de "O Donald". Ele não é, como as pessoas dizem, um "antipolítico". Na verdade, ele faz caricaturas dos políticos. E, como qualquer grande caricaturista, Trump identifica as características mais proeminentes de seus sujeitos e então as exagera.

No caso de Trump, a característica que ele identifica é a facilidade com que os políticos de carreira olham fixamente para a câmera e mentem ou inventam coisas. Como muitos políticos já estiveram no escritório de Trump buscando dinheiro ou apoio quando ele era apenas um empresário, e lhe disseram qualquer coisa que ele quisesse escutar, ele é obviamente um especialista nesse talento.

E assim Trump apenas levou a piada ao próximo nível.

Na verdade, se eu estivesse escrevendo um livro sobre esta campanha, começaria com a entrevista de Trump no "60 Minutes" da CBS em 27 de setembro. Trump explica seu plano de atendimento de saúde universal dizendo a Scott Pelley: "Eu vou cuidar de todo mundo". E quando Pelley pergunta como, Trump pronuncia a maior declaração feita até agora na campanha de 2015:

"O governo vai pagar por isso. Mas nós vamos economizar o mesmo dinheiro do outro lado. Mas na maior parte será um plano privado e as pessoas poderão ir e negociar grandes planos com muita competição diferente, com muitos concorrentes, com grandes companhias -- e elas podem ter seus médicos, elas podem ter planos, podem ter tudo."

Eu adoro essa última frase: "Elas podem ter seus médicos, elas podem ter planos, podem ter tudo!"

E a melhor parte é que isso não foi dito no "Saturday Night Live". Foi no "60 Minutes". Pobre Jeb Bush, ele simplesmente não consegue ir tão longe. É apenas um exagerador político de questões padrão. (Veja seu plano econômico.) Trump é a caricatura, a versão industrial. É por isso que você não pode ver diferença quando ele está no "SNL" ou no "60 Minutes".

Mario Cuomo ficou famoso ao dizer: "Você faz campanha na poesia. E governa na prosa". Trump diz, na verdade: Isso é para políticos mercenários normais. Eu farei campanha na fantasia e governarei na prosa. Por que não?

Diante dos ridículos planos fiscais de alguns presidenciáveis republicanos, Trump parece ter começado uma corrida com armas vale-tudo. Até Bernie Sanders está prometendo matrículas grátis nas faculdades públicas, mais benefícios da Seguridade Social e creches grátis a ser pagas principalmente pelos impostos do 1% mais rico -- sem necessidade de prejudicar a classe média.

E o novo presidente da Câmara, Paul Ryan, que nem sequer está disputando, entrou no jogo. Ryan descreveu a decisão de Obama de matar o projeto do oleoduto Keystone XL como "nauseante", acrescentando: "Se o presidente quiser passar o resto de seu tempo no cargo atendendo a interesses especiais, é opção dele. Mas está simplesmente errado".

Isto é realmente orwelliano: em uma época em que o "Grande e Velho Partido" [Republicano] se tornou uma subsidiária totalmente dominada pela indústria de petróleo e gás, Ryan acusa Obama de atender a interesses especiais; ele chama a decisão do presidente de bloquear um oleoduto para transportar petróleo de areias betuminosas, um dos combustíveis mais sujos do mundo, de "nauseante" e classifica o combate à mudança climática de "interesse especial". Esse cara faz parte dos debates republicanos.

Infelizmente, porém, o próximo presidente não governará na fantasia, mas com certa matemática cruel. Por isso, a lacuna entre esta campanha e o dia seguinte provavelmente será um chuveiro realmente frio.

Começando pela geopolítica. O tamanho do buraco de governança que teria de ser preenchido para simultaneamente destruir o Estado Islâmico, derrotar o ditador sírio, Bashar al Assad, e reconstruir a Síria, o Iraque, o Iêmen e a Líbia com governos autossustentáveis é absurdo.

No entanto, o custo de fazer menos -- uma hemorragia interminável de refugiados para nossos aliados Turquia, Jordânia, Líbano e União Europeia -- também é astronômico. Quando o custo da ação e o custo da inação são ambos impraticáveis, você tem um problema perturbador.

Não apenas os planos de cortes fiscais apresentados pelos principais candidatos republicanos criam deficits assustadores, como algumas propostas democratas de aumento de impostos também não ajudam.

Como relatou na semana passada o colunista de economia do "Washington Post" Robert Samuelson, um estudo do Instituto Brookings descobriu que mesmo que a alíquota fiscal da faixa superior de renda fosse aumentada de 39,6% para 50% cobriria menos de um quarto do deficit para o ano fiscal de 2015, e muito menos geraria fundos para maiores investimentos.

Se quisermos investir agora em infraestrutura -- como deveríamos -- e garantir que não vamos sobrecarregar a próxima geração para pagar todas as aposentadorias da geração "baby boom", algo terá de ceder, ou, como disse Samuelson: "Se os americanos da classe média precisam de ou querem um governo maior, terão de pagar por isso. Mais cedo ou mais tarde, um aumento de impostos os atingirá. Não existe fadinha do dente".

E finalmente, com os níveis de dióxido de carbono na atmosfera tendo alcançado alturas inéditas neste milênio, se quisermos "administrar os [efeitos] inevitáveis" da mudança climática e "evitar os inadministráveis", certamente será preciso colocar um preço no carbono, e logo.

Por isso, desfrute a diversão desta campanha enquanto ela dura, porque o próximo presidente não estará governando na poesia, na prosa ou na fantasia, mas com compromissos excruciantes. A piada somos nós.

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