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Acordo de Paris sobre clima é algo muito importante mesmo

Thomas L. Friedman

Em Paris (França)

17/12/2015 00h01

Eu tinha baixas expectativas sobre a reunião da ONU para o clima realizada aqui, e ela as cumpriu todas, lindamente. Digo isso sem cinismo.

Não se pode esperar que uma conferência global com tantos países concorde sobre muito mais que o mínimo denominador comum. Mas o fato de que o mínimo denominador comum hoje está tão alto --a disposição de 188 países a oferecer planos para reduzir de maneira constante e verificável suas emissões de carbono-- significa que ainda temos uma chance de enfrentar o que os cientistas dizem ser nosso maior desafio: evitar os piores impactos do aquecimento global que nem podemos imaginar e administrar os impactos que não podemos mais evitar. Isso é muito, muito importante.

Muitos líderes tiveram uma mão nisso, mas não teria acontecido sem a diplomacia do presidente Barack Obama e do secretário de Estado John Kerry.
Tiramos o chapéu, porque isto mantém viva a esperança de limitar o aquecimento da Terra a 2 graus centígrados acima do nível que existia no início da Revolução Industrial --a linha vermelha aproximativa que os cientistas traçaram, acima da qual a "maluquice global" se instalará e o clima provavelmente ficará muito estranho e instável. Já estamos quase a meio caminho de ultrapassar essa linha.

O único obstáculo importante no mundo a este acordo é o Partido Republicano dos EUA. Eu não me importaria com esses homens das cavernas --como dizia um cartaz carregado por um manifestante em Paris, "Os dinossauros também não acreditavam na mudança climática", e a coisa não acabou bem para eles--, exceto que um desses cabeças-duras poderá ser nosso próximo presidente e bagunçar tudo.

O Partido Republicano deveria ouvir o conselho sábio de Andy Karsner, que foi secretário-assistente de Energia de George W. Bush e um de seus negociadores sobre o clima, e usar o Acordo de Paris para construir uma ponte de volta ao compromisso construtivo sobre o assunto. Os republicanos podem argumentar de maneira plausível, disse Karsner, que foi Bush quem criou em 2007 a estratégia das "principais economias" para abordar a mudança climática, por meio, precisamente, do tipo de metas nacionais voluntárias e aprovadas pelo mercado que foram adotadas em Paris.

"O preço de superar essa questão poderá nunca mais ser tão baixo", disse Karsner sobre os republicanos. "Os líderes do Congresso precisam avaliar a oportunidade que eles têm de se reconectar com os eleitores da corrente dominante, líderes científicos, cívicos e empresariais, estrategistas geopolíticos e a maioria das pessoas com menos de 35 anos que passou em ciência na oitava série."

Com a Terra no ritmo para ganhar mais 2 bilhões de pessoas até 2050, todas as quais vão querer carros e casas, e com os cientistas dizendo que a única maneira de ficar abaixo da linha vermelha de 2 graus é abandonar progressivamente os combustíveis fósseis até aproximadamente a mesma data, só há uma força grande o suficiente para fazer isso --lidar com a Mãe Natureza em grande escala--, e é o Pai Ganância, isto é, o mercado.

O que tornará esse acordo altamente importante é se os EUA e a China liderarem o mundo a impor um preço ao carbono, porque só isso dará escala aos avanços tecnológicos já significativos que ocorreram com a energia solar, as baterias, a eficiência energética e a energia nuclear.

"Nos últimos seis anos", disse Hal Harvey, CEO da Energy Innovation, um grupo de pesquisas de políticas, "os preços da solar caíram mais de 80% e hoje custam menos que uma nova usina a carvão. A eólica caiu 60% e as lâmpadas de LED, mais de 90%". Com outras tecnologias ao alcance da mão, "fica claro que um futuro limpo não custa mais que um sujo", disse ele. "O Texas tem hoje mais energia eólica instalada que qualquer outro Estado americano. O Texas!"

A equipe de Harvey construiu um modelo de computador para ver que políticas podem descarbonizar a economia pelo menor preço. Ele permite que um usuário teste diversas opções de políticas sobre o clima, a poluição e a economia. Se você escolher a mistura certa, os resultados o farão sorrir. Veja online em www.energypolicy.solutions e experimente.

A questão, disse Harvey, é que o executivo-chefe de hoje "não precisa mais ser um herói" para investir em energia limpa.

De fato, José Manuel Entrecanales, presidente da Acciona, a gigante espanhola de renováveis, me disse que costumava estar sozinho na corrida para instalar renováveis, "com o vento no meu rosto". Mas agora ele sente o vento pelas costas, e algumas das maiores companhias de petróleo estão tentando avançar na corrida. Isso não é por acaso, disse ele, considerando que acordos recentes de Marrocos à África do Sul e ao Chile foram fechados por cerca de 2,8 centavos de dólar o quilowatt-hora de eólica e 4,2 centavos de dólar um kWh de solar, tornando-as altamente competitivas com o combustível fóssil.

"No Chile", disse Entrecanales, "houve [apenas] um leilão que foi agnóstico em tecnologia, por isso o governo estava oferecendo grandes pacotes de energia a ser fornecida nos próximos 10, 20 anos, e toda a energia concedida era renovável. Nem um único megawatt-hora de energia convencional foi fornecido".

Mas, salientou ele, alavancar o consenso de Paris para obter um preço do carvão nos grandes países emissores é o "Santo Graal", a coisa que afeta tudo o mais. Porque enquanto as renováveis podem vencer contra novas usinas de combustível fóssil, as antigas usinas construídas sem qualquer controle de poluição e com todo o seu gasto de capital amortizado e ainda gozando de subsídios, ainda podem funcionar muito barato, se você não contar seus enormes impactos de carbono.

Um preço para o carbono, segundo Entrecanales, "promoveria a tecnologia, promoveria a P&D [pesquisa e desenvolvimento], o investimento e os hábitos de consumo". Por isso Paris era necessária. Um preço para o carbono a tornará suficiente.

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