A era do protesto

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Jim Young/Reuters

    Incitação moral e tecnologia podem favorecer multiplicação global de manifestações

    Incitação moral e tecnologia podem favorecer multiplicação global de manifestações

Se você visitar o site do jornal "The Guardian" atualmente, você encontrará uma seção simplesmente chamada de "Protest" (Protesto). Agora, enquanto você toma seu café da manhã, você pode ler as notícias, se informar sobre o clima, esportes --e protestos. Aqui estão algumas das histórias que encontrei ali: "Cinco novas ideias para o agitador de arte de rua em 2016", "Mulher muçulmana expulsa de comício de Donald Trump após protesto silencioso" e, de modo apropriado, "Estamos vivendo em uma era de protesto".

Certamente estamos. Apenas nesta semana, a chanceler Angela Merkel, da Alemanha, enfrentou imensos protestos após seu ministro da Justiça ter declarado que imigrantes árabes --que entraram no país graças à política liberal de Merkel para os refugiados-- foram em grande parte responsáveis pelos ataques sexuais em massa contra mulheres em Colônia, no Ano-Novo, e usaram as redes sociais para coordenar seus ataques. O presidente Barack Obama de fato chorou --esse foi seu protesto singular-- enquanto tentava canalizar seu ultraje, e o de muitas outras pessoas, ao consertar as loucas leis de armas de nosso país.

Ao meu ver, esta era de protesto é movida, em parte, pelo fato de três das maiores forças no planeta --a globalização, a lei de Moore e a Mãe Natureza-- estarem todas em aceleração, criando um motor de disrupção que está estressando países fortes e as classes médias, destruindo os fracos e, ao mesmo tempo, superempoderando indivíduos e transformando a natureza do trabalho, da liderança e do governo.

Quando há tanta agitação em um mundo onde todo mundo com um smartphone é agora repórter, fotojornalista e documentarista, é de espantar que todos os jornais não tenham uma seção "Proteste".

Eu perguntei a Dov Seidman, autor do livro "Como: Por Que o Como Fazer Algo Significa Tudo" e presidente-executivo da LRN, que presta consultoria a empresas de todo mundo a respeito de liderança e como desenvolver culturas éticas, qual era sua opinião sobre esta era de protesto.

"Pessoas por toda parte parecem moralmente incitadas", disse Seidman. "O filósofo David Hume argumentou que a 'imaginação moral diminui com a distância'. Eu diria que o oposto também é verdadeiro: à medida que a distância diminui, a imaginação moral aumenta. Agora que não temos distância --é como se todos nós estivéssemos em um teatro lotado, tornando tudo pessoal-- estamos experimentando as aspirações, esperanças, frustrações e apuros de outros de formas mais diretas e viscerais."

De fato, estamos sendo intimamente expostos a imagens de brutalidade policial ultrajante, vítimas de terrorismo pulando das janelas de um teatro em Paris e e-mails corporativos sexistas/racialmente preconceituosos revelados por hackers. Quem não ficaria incitado?

"Pense nisto", disse Seidman: "Um dentista de Minnesota mata um leão querido no Zimbábue chamado Cecil e, dias depois, todas as pessoas no mundo sabem a respeito, provocando um tsunami de ultraje moral no Twitter e Facebook. Como resultado, algumas pessoas tentam fechar seu consultório odontológico postando avaliações negativas no Yelp e pichando "Assassino de Leão" em sua casa de férias na Flórida. Então quase 4 mil pessoas assinam uma petição em um único dia no Change.org, exigindo que a Delta Air Lines mude sua política de transporte de animais mortos como troféus de caça. A Delta muda e outras companhias aéreas seguem o exemplo. E então os caçadores que contribuem para a indústria do turismo no Zimbábue protestam contra o protesto, alegando que estão sendo discriminados".

O fato de estarmos nos tornando mais moralmente incitados "em geral é uma coisa boa", argumentou Seidman. O racismo institucionalizado nos departamentos de polícia, ou nas fraternidades universitárias, é real e foi tolerado por tempo demais. O fato de isso estar sendo contestado é um sinal de saúde e "reengajamento" da sociedade.

Mas quando a incitação moral se manifesta como ultraje moral, ele acrescentou, "isso pode tanto inspirar quanto reprimir uma conversa séria ou a verdade". Há certamente uma ligação entre a explosão de correção política nos campi universitários --incluindo a exigência pelos estudantes de Yale de renúncia de um administrador cuja mulher defendeu normas de liberdade de expressão que podem deixar alguns alunos desconfortáveis-- e as ovações que Donald Trump está recebendo por ser politicamente incorreto de modo rude.

"Se o ultraje moral, por mais justificado que seja, é seguido imediatamente por exigências de demissões ou renúncias", argumentou Seidman, "isso pode resultar em um ciclo vicioso de ultraje moral sendo respondido com ultraje igual, em vez de um ciclo virtuoso de diálogo e trabalho árduo para promoção de um entendimento real e acordos duradouros".

Além disso, "quando o ultraje moral passa por cima da conversa moral, então o resultado provavelmente será consentimento, não soluções inspiradas", acrescentou Seidman. Também pode alimentar a atual epidemia de falsos pedidos de desculpas, "já que pedidos de desculpas feitos sob pressão são como dizer a uma criança, "Apenas diga que lamenta", visando deixar o assunto para trás sem fazer as pazes ou reparações".

Com toda essa incitação moral, é como se estivéssemos "vivendo em uma tempestade sem fim", ele disse. A propósito, resolver disputas morais "exige perspectiva, contexto pleno e a capacidade de fazer distinções significativas".

Isso exige líderes com coragem e empatia "para inspirar as pessoas a fazerem uma pausa para reflexão, para que, em vez de reagirem gritando em 140 caracteres, elas possam canalizar esse ultraje moral a uma conversa profunda e honesta". Se pudermos fazer isso --um grande se-- concluiu Seidman, "poderemos realmente voltar a ser grandes, porque estaremos de volta a nossa jornada visando uma união mais perfeita".

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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