E se estivermos no fim de várias eras? Como ficará a eleição americana?

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Em Zurique (Suíça)
  • Robyn Beck/AFP

Faça-me falar sobre a situação atual do mundo e posso muito bem arruinar qualquer jantar. Não é a minha intenção, mas acho difícil olhar ao redor e não me perguntar se a recente turbulência nos mercados internacionais não é apenas o produto de tremores, mas sim das mudanças sísmicas nos pilares fundamentais do sistema global, com consequências altamente imprevisíveis.

E se várias eras estiverem terminando todas ao mesmo tempo?

E se estivermos no fim da era de mais de 30 anos de alto crescimento na China –e, portanto, da capacidade da China de alimentar o crescimento global por meio de suas importações, com as exportações e compras de commodities sendo bem menos efervescentes e confiáveis no futuro?

"Agora que essa bolha de dívida estourou, o crescimento na China parará", escreveu Michael Pento, o presidente da Pento Portfolio Strategies, na "CNBC" na semana passada. "A desvalorização do yuan, a queda dos preços das ações em Xangai (40% desde junho de 2014) e o despencar do volume de cargas ferroviárias (queda de 10,5% ano a ano), tudo claramente ilustra que a China não está crescendo nos proclamados 7%, mas sim não está crescendo. O problema é que a China é responsável por 34% do crescimento global, e o efeito multiplicador do país sobre os mercados emergentes eleva esse número para mais de 50%."

E se a era do preço do petróleo de US$ 100 o barril estiver terminando e todos os países cujas economias eram escoradas direta ou indiretamente por esses preços tiverem que aprender a crescer à moda antiga –produzindo bens e serviços que outros queiram comprar? Graças aos avanços tecnológicos constantes nos Estados Unidos em "fracking" (fratura hidráulica), perfuração horizontal e uso de "big data" (megadados) para identificação de depósitos, o poder da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) de determinar os preços desapareceu. Os países que estabeleceram seus orçamentos com base no petróleo a US$ 80 a US$ 100 o barril se verão altamente subfinanciados em meio a um grande crescimento de suas populações –lugares como Irã, Arábia Saudita, Nigéria, Indonésia e Venezuela.

E se ser mediano tiver acabado para os países? Durante a Guerra Fria era possível ser um Estado recém-independente, mediano, com fronteiras artificiais traçadas pelos poderes coloniais. Havia duas superpotências prontas para despejar dinheiro de ajuda a você, educar seus filhos nos Estados Unidos ou na Rússia fortalecer suas Forças Armadas e serviços de segurança, assim como comprar seus commodities e manufaturados abaixo da média.

Mas e se a ascensão dos robôs, software e automação significar que esses países não podem mais contar com a manufatura para criar empregos em massa, que os produtos que produzem e vendem não poderão competir com os produtos chineses, a mudança climática estiver pressionando seus ecossistemas e que nem a Rússia e nem os Estados Unidos queiram ter algo a ver com eles, porque a única coisa que receberiam é uma conta a pagar?

Muitos desses Estados artificiais, frágeis, não correspondem a qualquer realidade étnica, cultural, linguística ou demográfica. São casas móveis em um estacionamento de trailers –construídas sobre placas de concreto sem qualquer fundação real ou porão– e o que se vê hoje com a aceleração da tecnologia, com os estresses da mudança climática e globalização é o equivalente à passagem de um tornado por um estacionamento de trailers. Alguns desses Estados estão simplesmente se desfazendo e muitos de seus habitantes agora estão tentando cruzar o Mediterrâneo –para escapar de seu mundo de desordem e entrar no mundo da ordem, particularmente a União Europeia.

Mas e se a era da União Europeia estiver terminando? A agência de notícias Reuters noticiou nesta semana que a Alemanha está dizendo a outros países da UE que se não contiverem o fluxo de mais refugiados do Mediterrâneo para a Europa e "aliviarem Berlim da tarefa solitária de acolher os refugiados, a Alemanha poderia fechar suas portas". Alguns alemães até mesmo querem uma cerca na fronteira. Um importante conservador foi citado como tendo dito: "Se construirmos uma cerca, será o fim da Europa como a conhecemos".

E se a era do isolamento iraniano estiver terminando, no momento em que o sistema árabe está entrando em colapso e a solução de dois Estados para israelenses e palestinos estiver sendo enterrada? Como todas essas moléculas interagirão?

E se tudo isso estiver acontecendo no momento em que o sistema americano de dois partidos parece estar extraindo grande parte de sua energia da extrema esquerda e da extrema direita? A plataforma de Bernie Sanders é a de que podemos resolver a maioria de nossos problemas econômicos onerosos simplesmente tributando mais "O Homem". Donald Trump e Ted Cruz estão concorrendo com o tema de que são "O Homem" –o homem forte– que pode consertar tudo de forma mágica.

E se a eleição de 2016 nos EUA acabar sendo entre um socialista e um quase fascista –ideias que morreram em 1989 e 1945, respectivamente?

E se tudo isso estiver acontecendo em um momento em que a capacidade de nosso governo de estimular a economia por meio de políticas monetárias ou fiscais estiver restringida? A menos que adotemos taxas de juros negativas, o melhor que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) pode fazer agora é rescindir o minúsculo aumento das taxas de juros feito em dezembro. Enquanto isso, após todos os gastos vitais do governo para estimular a demanda após a crise de 2008, não há consenso no país para outra grande rodada de estímulo.

Todos esses "e se" constituem o verdadeiro cenário que o próximo presidente dos EUA enfrentará. Mas aqui está o pior "e se": e se estivermos em meio a uma eleição presidencial, mas ninguém estiver fazendo essas perguntas, muito menos pensando no que acontecerá se todas essas placas tectônicas se moverem ao mesmo tempo? Como geraremos crescimento, empregos, segurança e resistência?

Ainda há oportunidade para alguém liderar fazendo e respondendo todas essas perguntas "e se", mas o tempo está rapidamente acabando, assim como o último jantar que arruinei.

 
Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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