"Revoluções" atestam redes sociais como boas para destruir, mas não para construir

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Amr Abdallah Dalsh/Reuters

    Manifestantes comemoram renúncia de Mubarak no Egito, em fevereiro de 2011

    Manifestantes comemoram renúncia de Mubarak no Egito, em fevereiro de 2011

Nos últimos anos fomos testemunhas de várias "revoluções do Facebook", da Primavera Árabe ao Ocupem Wall Street àspraças de Istambul, Kiev e Hong Kong, todas alimentadas pelas redes sociais. Mas quando a fumaça baixou a maioria dessas revoluções falhou em construir uma nova ordem política sustentável, em parte porque na medida em que tantas vozes eram amplificadas a formação de um consenso se tornava impossível.

Pergunta: afinal, a rede social é melhor para quebrar coisas do que para fazer coisas?

No mês passado, uma voz importante respondeu a essa pergunta com um grande "sim". Essa voz foi Wael Ghonim, o funcionário egípcio da Google cuja página anônima no Facebook ajudou a lançar a revolução da Praça Tahrir, no início de 2011, que derrubou o presidente Hosni Mubarak, mas depois não conseguiu dar origem a uma verdadeira alternativa democrática.

Em dezembro, Ghonim, que desde então se mudou para o Vale do Silício (Califórnia), postou uma palestra TED sobre o que deu errado. Vale a pena assisti-la, e ela começa assim: "Um dia eu disse: 'Se vocês quiserem libertar a sociedade, tudo de que precisam é a internet'. Estava errado. Eu disse essas palavras em 2011, quando uma página do Facebook que eu criei anonimamente ajudou a provocar a revolução egípcia. A Primavera Árabe revelou o maior potencial das redes sociais, mas também expôs suas maiores fraquezas. A mesma ferramenta que nos uniu para derrubar ditadores acabou nos separando".

No início dos anos 2000, os árabes acorriam à rede, explicou Ghonim: "Sede de conhecimento e de oportunidades, conectar-se com as pessoas ao redor do mundo --escapamos de nossas frustrantes realidades políticas e vivemos uma vida alternativa virtual".

Então, em junho de 2010, comentou ele, "a internet mudou minha vida para sempre. Enquanto navegava no Facebook, vi uma foto (...) do corpo de um jovem egípcio que foi torturado e morto. Seu nome era Khaled Said. Era um rapaz de 29 anos de Alexandria que foi morto pela polícia. Eu vi a mim mesmo naquela foto. (...) Criei uma página anônima no Facebook e a chamei de 'Somos todos Khaled Said'. Em apenas três dias a página tinha mais de 100 mil seguidores, egípcios que compartilhavam aquela preocupação".

Em breve Ghonim e seus amigos usavam o Facebook para divulgar ideias, e "a página se tornou a mais seguida no mundo árabe. (...) A rede social foi crucial para essa campanha. Ela ajudou um movimento descentralizado a crescer. Fez as pessoas perceberem que não estavam sozinhas e tornou impossível para o regime contê-las".

Ghonim acabou sendo localizado no Cairo pelo serviço de segurança egípcio, foi espancado e mantido incomunicável durante 11 dias. Mas três dias depois que foi libertado os milhões de manifestantes convocados por suas publicações no Facebook derrubaram o regime de Mubarak.

Infelizmente, a euforia logo perdeu força, disse Ghonim, porque "não conseguimos formar consenso e a luta política levou a uma intensa polarização". A rede social, comentou ele, "só amplificou" a polarização, "ao facilitar a disseminação de informações erradas, boatos, repetições e discursos de ódio. O ambiente era puramente tóxico. Meu mundo online se tornou um campo de batalha cheio de mentiras e ódio."

Defensores do Exército e os radicais islâmicos usaram a rede social para se difamar, enquanto o centro democrático, ocupado por Ghonim e muitos outros, foi marginalizado. Sua revolução foi roubada pela Irmandade Muçulmana e, quando falhou, pelo Exército, que então prendeu muitos dos jovens que produziram a revolução inicialmente. O Exército tem sua própria página no Facebook para se defender.

"Foi um momento de derrota", disse Ghonim. "Eu mantive silêncio durante mais de dois anos e usei esse tempo para refletir sobre tudo o que aconteceu."

Aqui está o que ele concluiu sobre as redes sociais hoje: "Primeiro, não sabemos lidar com rumores. Rumores que confirmam os preconceitos das pessoas hoje se espalham entre milhões de pessoas". Segundo, "tendemos a só nos comunicar com as pessoas com quem concordamos, e graças à rede social podemos silenciar, deixar de seguir e bloquear todas as outras. Terceiro, as discussões online rapidamente se tornam grupos irados. (...) É como se esquecêssemos que as pessoas atrás das telas são reais, e não apenas avatares."

"E quarto, ficou realmente difícil mudar nossas opiniões. Por causa da velocidade e da brevidade da rede social, somos obrigados a adotar conclusões apressadas e a escrever opiniões resumidas em 140 caracteres sobre assuntos mundiais complexos. E quando fazemos isso elas vivem para sempre na internet."

Quinto, e mais crucial, disse ele, "hoje nossas experiências na rede social são criadas de uma maneira que favorece a disseminação, mais que os envolvimentos, as postagens, mais que discussões, comentários rasos, mais que conversas profundas. (...) É como se concordássemos que estamos aqui para falar para os outros, em vez de falar uns com os outros".

Ghonim não desistiu. Ele e alguns amigos começaram recentemente um site, Parlio.com, para hospedar conversas inteligentes e civilizadas sobre questões polêmicas e muitas vezes calorosas, com o objetivo de diminuir as divisões, e não ampliá-las. (Eu participei de um debate no Parlio e o achei envolvente e substancial.)

"Cinco anos atrás", conclui Ghonim, "eu disse: 'Se vocês quiserem libertar a sociedade, tudo de que precisam é a internet'. Hoje eu acredito que se quisermos libertar a sociedade primeiro precisamos libertar a internet."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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