Obama evita tanto ser Bush no Oriente Médio que parece ter desistido de ajudar

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Em Sulaimaniyah (Iraque)
  • Jason Reed/Reuters

Como pudemos ver na recente entrevista do presidente Barack Obama a "The Atlantic", ele praticamente odeia todos os líderes do Oriente Médio, incluindo os de Turquia, Iraque, Israel, Arábia Saudita, Catar, Jordânia, Irã e os palestinos.

O principal objetivo de Obama parece ser deixar o cargo sendo capaz de dizer que ele reduziu muito o envolvimento dos EUA no Iraque e no Afeganistão, evitou nosso envolvimento em solo na Síria e na Líbia e mostrou aos americanos os limites de nossa capacidade de consertar coisas que não entendemos, em países em cujos líderes não confiamos, cujos destinos não nos impactam tanto quanto antes.

Afinal, indicou o presidente, mais americanos são mortos todos os anos por escorregar na banheira ou atropelar veados com seus carros do que por qualquer terrorista, por isso devemos parar de querer invadir o Oriente Médio em reação a qualquer ameaça.

Tudo isso parece ótimo no papel, até que um ataque terrorista como o de terça-feira (22) em Bruxelas chega a nossas praias. O presidente tem esse direito?

Visitar o norte do Iraque, aqui no Curdistão, e conversar com muitos iraquianos nos faz pensar que Obama não está totalmente errado. Sentar-se em um fórum na impressionante Universidade Americana do Iraque, em Sulaimaniyah, e assistir aos líderes iraquianos discutirem e apontar dedos uns aos outros não me fez querer comprar muitas ações na Bolsa do Iraque, a ISX.

O que mais me marcou foi o momento em que o xeque Abdullah Humedi Ajeel al-Yawar, chefe da gigantesca tribo shammar, concentrada no que é hoje a Mosul ocupada pelo EI (Estado Islâmico), levantou-se com sua túnica elegante, olhou para o ministro do Petróleo do Iraque e perguntou: "O que aconteceu com os US$ 700 bilhões [em dinheiro do petróleo] que vieram para o Iraque e não se construiu uma única ponte? O que aconteceu com os US$ 700 bilhões? Perguntamos isso do coração."

Ele recebeu os aplausos mais fortes do dia. Não podemos estabilizar o Iraque ou a Síria se seus líderes não dividirem o poder e pararem de saquear.

Mas sentar-se aqui também faz perguntar se Obama não ficou tão obcecado por defender sua abordagem de não intervenção na Síria que subestimou tanto os riscos de sua passividade quanto a oportunidade de o poderio americano inclinar esta região para o nosso lado --sem ter de invadir nada. Inicialmente, pensei que Obama havia tomado a decisão certa sobre a Síria. Mas hoje os milhões de refugiados expulsos desse país --mais os migrantes econômicos que saem da África pela Líbia depois da operação totalmente abortada Obama-Otan lá-- estão desestabilizando a União Europeia.

A UE é o mais importante parceiro econômico e estratégico dos EUA e o outro grande centro do capitalismo democrático. Ela amplifica o poderio americano, e se for manietada teremos de fazer muito mais por nossa própria conta em defesa do mundo livre.

Nós e a UE juntos precisamos pensar em como criar lugares seguros na Líbia e na Síria para conter a onda de refugiados antes que ela quebre a UE. A história não será benigna com Obama se ele simplesmente virar as costas.

Ao mesmo tempo, Obama tem uma oportunidade que nenhum presidente americano já teve. Duas novas democracias surgiram no Oriente Médio, por conta própria. Uma é a Tunísia, cujos líderes da sociedade civil ganharam o Prêmio Nobel da Paz, depois de escreverem a Constituição mais democrática que já houve na região. Mas hoje armas, refugiados e terroristas islâmicos que vêm da Líbia, que nós liberamos de modo insensato, estão ajudando a desestabilizar a experiência tunisiana.

O Ocidente deveria estar presente na Tunísia com assistência econômica, técnica e militar. "A Tunísia é uma democracia novata", disse-me seu ex- primeiro-ministro Mehdi Jomaa. "Pode ser pequena, mas sua influência para o futuro da região é enorme. Não posso imaginar qualquer estabilidade na região se a Tunísia não tiver êxito."

A outra experiência democrática autoinstigada é o Curdistão iraquiano, onde os curdos construíram por si só uma universidade no estilo americano em Sulaimaniyah, porque eles querem imitar nossas ciências humanas, e acabam de abrir uma segunda Universidade Americana em Dohuk. Mas o pequeno Curdistão hoje abriga 1,8 milhão de refugiados de outras partes do Iraque e da Síria, e com os baixos preços do petróleo está quase falido.

O governo curdo, que permitiu o surgimento de um forte partido de oposição e uma imprensa livre, hoje está recuando. Seu presidente, Massoud Barzani, se recusa a ceder o poder no final de seu mandato, e o mau cheiro da corrupção está em toda parte. A experiência democrática curda está pendente por um fio. Mais ajuda americana condicionada a que o Curdistão retorne à trilha democrática seria muito útil.

"Há um grande jogo de sobrevivência lá", disse Dlawer Ala"Aldeen, presidente do Instituto de Pesquisa do Oriente Médio no Curdistão. "Os EUA precisam engajar os curdos de maneira construtiva, oferecer-lhes ajuda condicionada e torná-los o parceiro que os EUA merecem. Aqui, todo mundo escuta e gosta dos EUA. O povo [curdo] quer que os EUA o protejam do Irã e da Turquia."

O Curdistão e a Tunísia são apenas o que sonhamos: democracias autogeradas que poderiam servir de modelo para outras na região. Mas elas precisam de ajuda. Infelizmente, Obama parece tão obcecado por não ser George W. Bush no Oriente Médio que ele parou de pensar em como ser Barack Obama aqui --como deixar um legado único e garantir uma base para a democracia... sem invadir.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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