Lições de Hiroshima e Orlando: tecnologia dá 'superpoderes' a indivíduos

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Lucy Nicholson/Reuters - 14.jun.2016

    Manifestante levanta braço com punho cerrado e colorido com cores da causa LGBT em vigília em Los Angeles, na Califórnia, pelas vítimas de atentado em boate gay em Orlando (EUA)

    Manifestante levanta braço com punho cerrado e colorido com cores da causa LGBT em vigília em Los Angeles, na Califórnia, pelas vítimas de atentado em boate gay em Orlando (EUA)

Quero falar sobre a horrível tragédia humana de Orlando (EUA). Mas primeiro quero falar sobre Hiroshima --ou, mais precisamente, sobre o profundo discurso que o presidente Barack Obama fez lá em 27 de maio, que se perdeu em meio a todo o barulho da campanha eleitoral aqui nos EUA.

Obama sugeriu que Hiroshima representa um mundo em que pela primeira vez um país detinha o poder de matar a todos nós --e já que tinha de ser algum país fico feliz que tenha sido os EUA. Mas hoje, disse ele, estamos entrando em um mundo em que pequenos grupos --talvez até, em breve, uma única pessoa com superpoderes-- serão capazes de matar a todos nós; portanto, é melhor começarmos a pensar sobre as implicações morais do rumo em que a tecnologia está nos levando.

"A ciência nos permite comunicar através dos mares e voar acima das nuvens, curar doenças e compreender o cosmo, mas essas mesmas descobertas podem ser transformadas em máquinas mortíferas cada vez mais eficientes", comentou o presidente. "As guerras da era moderna nos ensinam essa verdade. Hiroshima ensina essa verdade. O progresso tecnológico sem um progresso equivalente nas instituições humanas pode nos condenar. A revolução científica que levou à divisão do átomo exige também uma revolução moral."

O que o presidente descreveu é a principal questão estratégica de nosso tempo: o crescente desequilíbrio entre a combinação de rápida evolução de nossa proeza tecnológica e o poder que ela dá a um único indivíduo ou grupo de destruir em grande escala (hoje você pode fabricar sua própria arma com uma impressora 3D) e o ritmo de nossa evolução moral e social para governar e usar esses poderes de modo responsável.

E isso me leva ao massacre de Orlando --ao que acontece quando, em uma escala menor, nos recusamos a reimaginar as mudanças sociais e jurídicas de que precisamos para administrar um mundo onde um idiota pode matar tantas pessoas inocentes. A ideia de que tal pessoa --qualquer pessoa-- possa ter a capacidade de comprar um fuzil de assalto de estilo militar é insana. Que o Partido Republicano não consiga ver a sabedoria das leis de armas de senso comum é simplesmente pedir novas chacinas.

Ao mesmo tempo, ano após ano, continuamos vendo jovens muçulmanos tirando inspiração e permissão do islã para matar um grande número de civis no Ocidente e, ainda mais, matar outros muçulmanos em terras muçulmanas.

Eu vivi por muito tempo no mundo muçulmano e experimentei a decência das comunidades muçulmanas para acreditar que essa é a essência do islã. Mas já vi demais dessa violência suicida durante muito tempo para acreditar que ela não tenha nada a ver com as versões puritanas do islã que são contra gays, transgêneros, mulheres, pluralismo religioso, que com demasiada frequência são promovidas por fontes no mundo árabe, no Paquistão e Afeganistão.

Os sites da web, redes sociais e mesquitas que promovem essas ideias intolerantes podem "iluminar" almas perdidas em qualquer parte do mundo. Até que isso pare, vamos esperar pelo próximo Paris, Bruxelas, San Bernardino ou Orlando.

E a única coisa que pode detê-los vem de dentro: um movimento de massa significativo dos governos, clérigos e cidadãos muçulmanos para deslegitimar esse comportamento. É preciso uma aldeia, e só para quando a aldeia diz claramente: "Chega!" E isso não aconteceu na escala e consistência em que tem de acontecer.

Finalmente, numa era em que os indivíduos podem se tornar superpoderosos, precisamos garantir que nosso governo tenha todos os poderes de vigilância necessários --sob uma revisão judicial apropriada-- para monitorar e deter extremistas violentos de todos os tipos. Os bandidos hoje têm ferramentas demais para escapar à detecção.

Obama encerrou seu discurso em Hiroshima com palavras que poderiam facilmente ter sido ditas em Orlando: "Os que morreram são iguais a nós... Eles não querem mais guerra. Eles prefeririam que as maravilhas da ciência se concentrassem em melhorar a vida e não em eliminá-la. Quando as opções feitas pelos países, quando as opções feitas pelos líderes, refletirem essa simples sabedoria, então a lição de Hiroshima estará concluída".

Precisamos fazer escolhas apropriadas à nossa era, quando a tecnologia pode ampliar tanto o poder de uma pessoa. Precisamos de leis de armas de senso comum, igualdade de gêneros de senso comum e pluralismo religioso e leis de privacidade de senso comum.

Mas isso exige líderes de senso comum, e não os que pensam que as complexidades desta era podem ser eliminadas à bomba, a muros, a insultos e depreciações. Pare por um momento e reflita sobre o que esta semana teria sido se Donald Trump fosse presidente --o bombardeio total que ele teria ordenado no Oriente Médio, o medo e o isolamento que sua proibição aos muçulmanos teria provocado em cada norte-americano muçulmano, a alegria que o Estado Islâmico teria sentido por estar em guerra com os EUA, a licença que isso teria dado a malucos em nossa sociedade para bombardear uma mesquita. E a reação que provocaria entre os muçulmanos de todo o mundo, dentre os quais os mais radicais bombardeariam nossas embaixadas. Quando os EUA enlouquecem, o mundo enlouquece.

Não concordo com Obama em todos os aspectos desse problema. Mas o homem está pensando profundamente e agindo com responsabilidade. Trump está atirando sem mirar, borrifando insultos em 360 graus, dizendo mentiras, instigando medos e fazendo ameaças que muitos de nossos militares e o FBI se recusariam a implementar. Se vocês, senadores e congressistas republicanos, apoiarem Trump para presidente, ele os dominará --e vocês serão responsáveis por tudo o que ele fizer.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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