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Anderson Baltar


Portela levará para a avenida o Rio anterior à chegada dos europeus

O casal Lage, presidente Luis Carlos Magalhães, o escritor Rafael Freitas e o vice-presidente Fábio Pavão - Divulgação/ Raphael Azevedo
O casal Lage, presidente Luis Carlos Magalhães, o escritor Rafael Freitas e o vice-presidente Fábio Pavão Imagem: Divulgação/ Raphael Azevedo
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

08/08/2019 15h59

A Portela lançou ontem a sinopse de seu enredo para o Carnaval 2020: "Guajupiá, terra sem males", dos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage, levará para a Sapucaí uma visão inédita do Rio de Janeiro: um retrato de como era a vida em terras cariocas antes da chegada dos colonizadores portugueses.

Tendo como uma de principais fontes de inspiração o livro "O Rio antes do Rio", de Rafael Freitas da Silva, o texto distribuído aos compositores retrata a região do Rio de Janeiro, ocupada pelos índios tupinambás e vista como a idílica Guajupiá - terra em que, segundo a mitologia nativa, seria como o lugar paradisíaco buscado por toda a etnia.

Um enredo indígena do início ao fim é uma novidade na carreira do casal Lage. Algumas referências desta temática podem ser encontradas em desfiles como os de 1999 ("Villa Lobos") e 2000 ("Verde, amarelo, azul-anil...") pela Mocidade Independente de Padre Miguel. O novo desafio é saudado por Renato: "Vamos trazer uma visão indígena totalmente diferente, muito baseada na vivência deles, na beleza da fauna e da flora. Queremos fugir da mesmice". Márcia acrescenta que a estética do desfile fugirá da visão tradicional que os nativos foram apresentados. "Sempre vimos o índio do europeu, sob o olhar de Debret ou Rugendas. Queremos encontrar a visão do índio vinda do próprio índio", explica Márcia Lage.

Segundo Márcia, a escolha do tema foi uma confluência de fatores. O casal já estudava sobre temas indígenas, até porque era uma das propostas de enredos patrocinados que foram tentadas. "Assisti à série 'Guerras do Brasil.doc', na Netflix e, logo depois, peguei o livro do Rafael, que tinha comprado, mas ainda não tinha lido. Com a leitura, tudo ficou claro. Foi uma conjunção de fatores, regidos pela ancestralidade", relata a carnavalesca.

Entusiasmado com a oportunidade de colaborar com o Carnaval da Portela, o escritor e jornalista participou da apresentação do enredo e tirou algumas dúvidas dos compositores. E acrescentou detalhes interessantes. Um dos que mais encantou os portelenses foi o de que a região de Madureira, onde fica a escola, nos tempos dos tupinambás sediava a taba de Guirá Guaçu, que significa "a aldeia em forma de águia".

Sambista diletante, que já chegou a desfilar algumas vezes em escolas, o escritor agora afirma estar dedicado a auxiliar ao Carnval da Portela. "Ter meu livro como base para um enredo da Portela foi uma surpresa maravilhosa e estou inteiramente à disposição da escola. É gratificante ver que a nossa história apagada, não contada de nossa ancestralidade, será apresentada na avenida", comemora Freitas.

Última escola a desfilar no domingo de Carnaval, a Portela comemorará em 2020 os 50 anos de seu último título solo na folia e que se deu com temática indígena: "Lendas e Mistérios da Amazônia". Renato Lage vê no fato como um ingrediente a mais para proporcionar aos portelenses um desfile inesquecível: "Iremos celebrar a data proporcionando um belo espetáculo com o nascer do dia, mostrando o florescer de nosso Guajupiá e desfilando em um horário em que a Portela tantas vezes brilhou".