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"É como se fosse luto": por falta de bolsa, brasileira interrompe doutorado

Arquivo pessoal
Leticia Takahashi, pesquisadora que teve que interromper o doutorado por falta de bolsa Imagem: Arquivo pessoal

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

2019-05-08T12:12:52

08/05/2019 12h12

Um documento importante, duas assinaturas e uma repercussão gigantesca na internet. Foi com tristeza que Leticia Masako Takahashi, 26 anos, dividiu com amigos, família e seguidores no Facebook a necessidade de interromper a sua pós-graduação em química na UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro) e os motivos da decisão.

Aprovada no doutorado agora em 2019, o plano de Leticia era continuar sua pesquisa, desenvolvida ao longo dos dois anos de mestrado, para encontrar moléculas que tivessem potencial de se tornar novos medicamentos para o tratamento da leishmaniose, doença transmitida por mosquito que cresceu quase 53% nos últimos 26 anos no Brasil e que pode ser fatal.

Diante da falta de uma bolsa de estudos que pudesse ajudá-la durante a pesquisa (valor em média de R$ 2.200), ela não viu outra saída a não ser trancar o doutorado -- curso pelo qual foi aprovada em segundo lugar no programa de pós-graduação mineiro.

"É como se fosse um sentimento de luto. Eu só senti essa dor, essa tristeza quando perdi meu pai [em 2015]. Nem sei dizer o tanto que eu já chorei. E não é só algo só pessoal. É a pesquisa que vai ser interrompida. Me dá um nó na garganta", afirmou Leticia ao UOL Ciência.

O desabafo sobre a necessidade de interromper seu doutorado, publicado no último domingo, viralizou na internet -- chegou a mais de 56 mil compartilhamentos e 77 mil interações.

"Para mim, como professora dela, é desolador. Eu fiz tudo o que esteve ao meu alcance dentro da ética, mas não teve jeito. Dói muito porque o trabalho dela de mestrado é belíssimo. Ela é uma pesquisadora nata. Não poder desenvolver pesquisa porque não tem como se manter é triste demais", desabafou a professora Amanda Danuello Pivato, orientadora de Leticia e vice-coordenadora do programa de Pós-graduação Multicêntrico em Química de Minas Gerais, do qual a estudante faz parte.

A relação de Leticia com a UFTM e o universo científico começou há mais de dez anos. Estudante de escola pública, a pesquisadora frequentou o cursinho popular oferecido pela instituição e organizado por alunos voluntários.

Depois de fazer o vestibular da universidade, veio a conquista em 2011: foi aprovada em primeiro lugar no curso de licenciatura em química. A doutoranda lembra que quis cantar, dançar, sair correndo na rua para gritar "Passei".

Por motivos financeiros, ela precisou trancar a graduação um tempo depois, mas voltou em 2013 depois de ter sido aprovada em um concurso para assistente administrativa concursada em uma escola militar. Durante os anos de licenciatura, a pesquisadora ainda se dividia entre a venda de produtos artesanais feitos por ela (que continuam até hoje).

Mas ela não estava satisfeita. O desejo de se tornar uma cientista e futura professora sempre esteve por perto. Com a aprovação no mestrado em química da UFTM e com uma posterior oferta de bolsa de estudos -- de R$ 1.500, ela decidiu pedir exoneração do cargo para poder se dedicar 100% ao seu projeto de pesquisa.

Arquivo pessoal
Orientadora Amanda Danuello Pivato (esq.) e a pesquisadora Leticia Masako Takahashi (dir.) Imagem: Arquivo pessoal

"Muita gente me chamou de louca por desistir de um cargo público. Mas aquilo não era o meu objetivo. Sempre tive fascínio enorme pelo que eu estudo, pela química, por fazer algo para dar um retorno social. Já entrei na universidade apaixonada por tudo isso. Sempre quis dar aula", contou à reportagem.

Foram dois longos anos de horas e mais horas dentro de um laboratório. Se você se lembra das aulas de química, deve saber que algumas reações dependem de observação constante.

Foram os dois anos mais insanos que já vivi. A dedicação exclusiva tem um preço alto. Não existe férias, finais de semana, descanso ou feriado. Se uma reação precisa da sua atenção por 18 horas, você vai ficar no laboratório por 18 horas. (...) Isso sem contar o trabalho que você leva para casa, já que a parte escrita acontece nos intervalos do trabalho no laboratório, normalmente nas madrugadas
Leticia Takahashi

Segundo a orientadora do projeto, os resultados da pesquisa de Leticia são promissores e seria importante que o trabalho continuasse. Mas infelizmente a pesquisa envolvendo a leishmaniose foi interrompida.

Ao ser selecionada para o doutorado, Leticia já sabia que o programa não possuía mais nenhuma bolsa de estudos disponível. Mas havia uma esperança de que algo pudesse mudar com o início das aulas.

Para não correr o risco de não ter como se manter com o fim da bolsa de R$ 1.500 do mestrado, a pesquisadora concorreu ao cargo de professora da rede estadual no início do ano e foi aprovada. Ela até estava disposta a deixar o emprego para poder voltar a se dedicar exclusivamente ao seu projeto. Mas o plano permanece o inicial.

"Eu tentei conciliar o trabalho com o doutorado, mas não dá. Biologicamente falando mesmo. Não dava tempo de comer, dormir. Conseguia ir ao laboratório aos finais de semana, mas só isso não estava rendendo o quanto eu precisava. Juro que tentei até a minha última força. Mas também quero fazer algo bem feito. Não tem porque fazer se não for para ser bom", contou.

Uma pesquisadora que fala por todos

O relato de Leticia na internet deu voz a outros estudantes e pesquisadores que passam por dificuldades parecidas (ou piores). Essa foi a percepção da doutoranda e de sua orientadora.

Para as duas, fazer pesquisa no Brasil não é e nunca foi uma tarefa fácil, mas os problemas parecem ter aumentado nos últimos anos. E realmente não é difícil encontrar estudantes e professores que se viram como podem para manter os projetos de pesquisa de pé. Leticia é mais um triste exemplo disso.

Elas contam que a falta de reagentes e insumos para os testes são comuns. A falta de equipamento e infraestrutura física é outro grande desafio que já tiveram que lidar.

"Meu laboratório já sobreviveu com muitas doações, com a colaboração de outros laboratórios que tinham coisas no estoque e doaram. Só esse trabalho colaborativo possibilitou a minha pesquisa de ser realizada. Foi quase um milagre conseguir terminar [o mestrado]", explicou Leticia.

O receio das duas profissionais é que um problema já grave se torne ainda pior. Os cortes de 30% no orçamento das universidades e institutos federais, anunciados pelo governo na última semana, viraram mais uma preocupação.

"O desabafo dela se tornou mais do que uma esperança. Tenho muito orgulho dela ter se tornado uma espécie de voz para representar tantos pós-graduandos que passam por dificuldades neste país. Nós tivemos sorte. Conseguimos ajuda de outras instituições de ensino que tinham materiais para nos ajudar. Mas e pesquisadores de lugares com menos acesso, menos recursos? Como ficam?", ressaltou Amanda Pivato.

O doutorado pelo qual a pesquisadora foi aprovada faz parte de um programa de pós-graduação em química que reúne várias universidades federais de Minas Gerais.

Dos 178 alunos matriculados atualmente (96 mestrandos e 82 doutorandos), só 24 pessoas conseguiram bolsas de estudos fornecidas pelo governo federal, via Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), e pelo governo mineiro via Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais), o mesmo órgão que concordou em destinar R$ 13,5 milhões para pesquisar e ajudar a operacionalizar o Hyperloop, sistema idealizado por Elon Musk para transportar pessoas em cápsulas de alta velocidade.

Diante da repercussão de seu relato e de vários pedidos para que ela não desistisse, Leticia vai aguardar até o final do semestre para decidir se vai deixar o doutorado mesmo. Com tanto apoio, um fio de esperança de que alguém ou alguma entidade privada consiga ajudá-la surgiu. Até lá, ela segue como professora e seu projeto permanece no modo de espera.

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