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Jamil Chade

Em defesa da exportação de carne, Brasil tenta modificar informe climático

Pecuária em área próxima a espaço recentemente desmatado e queimado, em Candeias do Jamari (RO) - Victor Moriyama/Amazônia em Chamas
Pecuária em área próxima a espaço recentemente desmatado e queimado, em Candeias do Jamari (RO) Imagem: Victor Moriyama/Amazônia em Chamas
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/10/2021 07h16

Documentos internos sobre as negociações sobre um informe climático revelam que o governo do Brasil tentou modificar as conclusões de cientistas sobre o papel da pecuária e do consumo de carnes nas emissões de gases de efeito estufa.

A informação foi publicada a partir de documentos obtidos pela BBC a partir do processo de elaboração de um documento do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e confirmada pela reportagem do UOL por diplomatas envolvidos no processo negociador. A revelação ocorre às vésperas da COP26, a cúpula do Clima em Glasgow, em novembro. A atitude de outros governos também gera dúvidas sobre o compromisso que esses estados estão dispostos a atingir durante a reunião para a redução de emissões.

No documento oficial, cientistas apontam para a constatação de que uma redução do consumo de carne será necessária para reduzir as emissões. No texto, o que os autores indicam é que "dietas baseadas em plantas podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 50% em comparação com a dieta ocidental intensiva de emissões médias".

De acordo com a BBC, os negociadores brasileiros contestam a conclusão e pedem que o texto seja modificado, principalmente quando se fala da carne bovina como um alimento de "alto teor de carbono".

A posição do Itamaraty é de que "dietas baseadas em plantas não garantem por si só a redução ou o controle das emissões relacionadas". O que o Brasil insiste é que o foco deve ser colocado nos diferentes sistemas de produção, e não nos alimentos.

De acordo com a BBC, outro ponto questionado pelo governo se refere ao impacto da desregulamentação no avanço do desmatamento.

Na questão das carnes, o Brasil ainda conta com o apoio da delegação da Argentina, que também contesta o informe.

Entidade faz campanha contra o financiamento do desmatamento

A revelação ocorre uma semana depois que, para marcar o Dia Nacional da Pecuária, uma campanha foi lançada para questionar os subsídios recebidos pelo setor e alertar a sociedade que, no fundo, são os contribuintes brasileiros quem estão financiando o desmatamento com dinheiro público.

A iniciativa foi do Instituto Escolhas, que quer abrir o debate na sociedade brasileira sobre o tema, usando justamente um dos argumentos do governo de que o Brasil não depende da Amazônia para produzir. "Se já temos terras sobrando para produzir, por que financiar o desmatamento com dinheiro público?", questiona.

"Se o país não precisa desmatar para comer, não faz mais sentido financiar o desmatamento com dinheiro público. Por que não apoiamos com recursos públicos apenas quem produz sem desmatar?", pergunta a entidade.

O Instituto aponta como chefes da pasta da Agricultura no passado e a ministra, Tereza Cristina, vem afirmando quer o Brasil não depende da Amazônia para produzir e que não precisamos mais desmatar para comer. "Não precisamos desmatar para comer, basta aumentar a produtividade", disse a ministra. "Não precisamos da Amazônia. E eu sou uma defensora intransigente de se zerar o desmatamento ilegal", completou.

Para o Instituto Escolhas, de fato é possível zerar o desmatamento - sem impactos na economia - e investir na expansão da produção usando as áreas já abertas para pasto, hoje subutilizadas.
Mas, para isso, os financiamentos públicos devem ser direcionados apenas para quem produz sem desmatar.

Sergio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas, diz que os subsídios por ano ao setor foram de R$ 12,3 bilhões, o que corresponde a 79% do que foi arrecadado em impostos na cadeia da carne bovina nesse período, R$ 15,1 bilhões. O levantamento revela uma cadeia altamente subsidiada e com alto impacto ambiental.

Segundo ele, se houvesse um país chamado "Pecuária Brasil", com rebanho que chega a 218,2 milhões de cabeças de gado, ele seria o 20º maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, igual ao que emite a Inglaterra. Ou seja, 462 milhões de toneladas de CO2.

De acordo com o estudo, o valor das emissões de CO2 é de 782 kg de CO2/kg de carne em Roraima e 713 no Amazonas. No restante do país, onde não ocorre taxas de desmatamento em grandes proporções, a pegada é de 23 kg de C02.

Citando um estudo do Imazon, Leitão ainda aponta que cerca de 90% da área desmatada na Amazônia é ocupada por pastagens. Para ele, portanto, o estado deve apoiar o setor, mas num esquema condicionado a bons resultados econômicos, sociais e ambientais. "Dinheiro público apenas para quem produz sem desmatar", defende.

O mesmo informe revela que "o Banco do Brasil é, de longe, o maior financiador de empresas de commodities com risco de desmatamento no Brasil (30 bilhões de dólares) devido ao seu papel como o maior operador do Crédito Rural". Os dados ainda mostram que "o BNDES foi o maior provedor de investimentos para empresas de risco de desmatamento operando no Brasil (U$ 3.8 bilhões -abril/2020). Mais da metade dos investimentos do BNDES foi direcionada ao setor de carne bovina", diz.