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Documento pede que países vetem indicação de Weintraub para o Banco Mundial

Bolsonaro demonstra desconforto ao atender demanda por "abracinho" do demissionário Abraham Weintraub - Reprodução/Facebook
Bolsonaro demonstra desconforto ao atender demanda por "abracinho" do demissionário Abraham Weintraub Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

19/06/2020 10h00Atualizada em 19/06/2020 19h09

"Enviamos esta carta para desaconselhar fortemente a indicação do Sr. Weintraub para este importante cargo e informá-lo sobre os possíveis danos irreparáveis que ele causaria à posição do seu país no Banco Mundial. Estamos convencidos de que o Sr. Abraham Weintraub não possui as qualificações éticas, profissionais e morais mínimas para ocupar o assento da 15ª Diretoria Executiva do Banco Mundial."

Economistas, empresários, intelectuais estão assinando uma carta endereçada ao banco e aos embaixadores da Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Filipinas, Suriname e Trinidad e Tobago, que devem referendar a indicação do ex-ministro da Educação para um cargo na direção-executiva do Banco Mundial.

Indicado pelo governo Jair Bolsonaro como prêmio de consolação após sua permanência ter ficado insustentável com os ataques contra ministros do Supremo Tribunal Federal, Weintraub deve assumir posição em Washington DC, nos Estados Unidos, com salário que pode chegar a R$ 116 mil mensais.

Entre os mais de 270 signatários até agora estão o ex-embaixador Rubens Ricupero, o empresário Philip Yang, os economistas Laura Carvalho e Ricardo Henriques, o advogado e professor Thiago Amparo, a historiadora e antropóloga Lília Moritz Schwarcz. O documento está sendo organizado com a ajuda de uma rede de organizações da sociedade civil.

O Brasil detém mais peso relativo no grupo e, em tese, poderia indicar Weintraub sozinho. Contudo, a manutenção da indicação pode se transformar em mais um problema para a imagem internacional do país, profundamente abalada com o negacionismo do presidente da República frente à pandemia de coronavírus e com o salto no desmatamento e nas queimadas na Amazônia no ano passado.

O cargo, segundo uma fonte no Ministério das Relações Exteriores, é mais equivalente ao de um membro de um conselho de administração do que o de um diretor. Uma função mais consultiva do que técnica, uma vez que a elaboração das principais medidas não passa por suas mãos. Se fosse função destinada a produzir e executar políticas, haveria uma seleção cuidadosa.

O documento afirma que a demissão de Weintraub foi o cume de um ambiente destrutivo e venenoso que ele inflou em todo o sistema político do Brasil.

"Desde que assumiu o cargo, Weintraub sempre respondeu com desprezo, sarcasmo e agressividade a críticas ou mesmo recomendações de cidadãos comuns, jornalistas, legisladores e até juízes da Suprema Corte. Em um tuíte de 16 de novembro de 2019, ele chamou a mãe de uma seguidora de 'égua com coceira e desdentada'. Em um vídeo de uma reunião de gabinete divulgada pelo Supremo Tribunal Federal, em 22 de maio de 2020, no contexto de acusações de interferência indevida, pelo Presidente na Polícia Federal, Weintraub chamou os juízes do Supremo Tribunal de 'vagabundos', que ele trancaria na prisão se pudesse", diz a carta.

Os signatários afirmam que devido ao seu comportamento odioso e desempenho medíocres como ministro da Educação, houve pedidos para a sua renúncia em quase todos os segmentos da sociedade.

E ao avaliar que Weintraub é a "antítese de tudo o que o Banco Mundial procura representar na política de desenvolvimento e no multilateralismo", os signatários listam cinco justificativas:

1) Ideologia acima da política baseada em evidências - Citam, como exemplo, seu último ato no cargo, o de revogar uma portaria para ações afirmativas voltadas a negros, indígenas e pessoas com deficiência para ingresso na pós-graduação de universidades pública. E dizem que ele está sendo investigado no STF por divulgar notícias falsas.

2) Fraca habilidade de gestão - Baseado em um relatório do Congresso Nacional, dizem que Ministério da Educação estava "paralisado" devido à "instabilidade e falta de continuidade na gestão atual". E que a administração da pasta sob Weintraub tem o menor número de indivíduos com experiência em gestão pública e temas relacionados à educação, seja no setor público ou privado. Com exemplo de impacto disso, usa os problemas ocasionados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) quando, segundo a carta, milhares de estudantes foram pontuados incorretamente e tiveram que ser reavaliados.

3) Falta de entendimento e capacidade de lidar com injustiças sociais e econômicas por meio de políticas públicas - Tratando ainda do Enem, afirma que Weintraub não aceitou mudar a data de aplicação do exame neste ano, o que prejudicaria os estudantes mais pobres que não têm instrumentos para estudar durante a pandemia.

4) Desrespeito pelos valores do multilateralismo, como tolerância e respeito mútuo - A carta afirma que Weintraub está respondendo a cerca de 20 ações judiciais no Supremo Tribunal Federal, citando a investigação sobre racismo contra chineses, que teve uma dura resposta da Embaixada da China no Brasil.

5) Conduta incompatível com os padrões éticos e de integridade profissional - "Tendo em vista o histórico de declarações racistas, desrespeitosas e agressivas do Sr. Weintraub, bem como sua clara ineptidão como formulador de políticas e agente público, o Sr. Weintraub não atende a vários requisitos e princípios do Código de Conduta do Banco Mundial para funcionários do Conselho", afirmam os missivistas.

A carta será enviada, nesta sexta (19), ao Banco Mundial e aos embaixadores dos países que compõem o grupo do Brasil.

A coluna conversou com um especialista em Banco Mundial que afirmou que a rejeição ao nome de Weintraub seria um precedente não usual. Mas ele pode ser excluído de ações, e com ele, o Brasil. "Quem perde com isso, somos nós", afirma.

Para ele, instituições como o banco são mais blindadas que outras devido ao pragmatismo. "Vai ser estupidez fazer guerra cultural por lá."

Leonardo Sakamoto