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No Queiroz Day, Weintraub teve tempo de ser Weintraub antes de deixar o MEC

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

18/06/2020 17h30

Abraham Weintraub nunca foi ministro da Educação. Ele era um preposto indicado por Jair Bolsonaro para utilizar o ministério como posto avançado para a guerra cultural que o presidente vem empreendendo no Brasil. Seu objetivo? Ressignificar o passado para controlar o presente.

Independentemente de quem seja o próximo semovente a ser posto no local é um alento que não seja mais ele - mesmo que a pasta seja chave para as pretensões medievais de Bolsonaro e que, no fundo do poço, exista sempre um alçapão.

Nada mais natural, portanto, que um de seus últimos atos antes de anunciar sua saída, nesta quinta (em um constrangedor vídeo ao lado do presidente, aliás), tenha sido revogar uma portaria que estabelecia a política de cotas para negros, indígenas e pessoas com deficiência em cursos de pós-graduação. 

Vale lembrar que ele havia demonstrado seu amor por grupos vulneráveis na icônica reunião ministerial de 22 de abril, viralizada em vídeo:  "odeio o termo 'povos indígenas', odeio esse termo. Odeio. O 'povo cigano'. Só tem um povo nesse país. Quer, quer. Não quer, sai de ré". Para ele, tem que "acabar com esse negócio de povos e privilégios". 

Mais do que uma provocação ao naco racional da sociedade, foi um aceno para a militância de extrema direita - que não se importa se uma escola não tem professores, livros, merenda e papel higiênico desde que o governo cumpra sua promessa de empreender a guerra contra o fictício exército comuno-gayzista-globalista.

Por conta da autonomia universitária, instituições já anunciaram que vão ignorar a estupidez. Como a Universidade Federal da Bahia (UFBA), que lamentou o retrocesso em nota pública. Mas o que fica é o ato, visto como de resistência pelos 16% da população composta de bolsonaristas-raiz (números do Datafolha) que acreditam que ele é um herói.

Seu filme está institucionalmente queimado após defender a prisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal e incensar manifestações contra a democracia. Mas não duvidem que ele volte dos Estados Unidos, onde deve se refugiar em um cargo no Banco Mundial, a tempo de se candidatar em 2022. O Brasil perde um ministro, mas a extrema direita ganha um candidato.

Pois esqueçam o desvio do orçamento da educação para pagamento de juros da dívida pública, esqueçam a incapacidade administrativa e gerencial, o sucateamento e a falta de apoio para a formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e atrasados, a falta de planos de carreira, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de segurança para se trabalhar. Esqueçam os projetos impostos de cima para baixo que fecham escolas e desfazem comunidades escolares. Esqueçam o gás lacrimogênio e as balas de borracha contra professores que fazem greve e estudantes e pesquisadores que protestam por uma vida melhor.

Para um naco da sociedade e o governo que o representa, os desafios da educação são recontar a história da ditadura militar, negando a ocorrência de mortes e torturas; explicar às crianças e jovens que todos os direitos não foram fruto de lutas históricas; convencer que existe uma forma certa de amar e de viver; e garantir que a meritocracia continue sendo hereditária, com preferência por uma cor de pele, classe social e gênero.

Milhares de alunos do terceiro ano do Ensino Médio de escolas públicas estão com os conteúdos de aulas atrasados devido à pandemia de coronavírus. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Abrajam Weintraub não apenas tentaram manter a realização do Enem 2020 - porta de entrada para universidades públicas - como veicularam uma campanha em que justifica para esses jovens que era legal ser largado à própria sorte.

Weintraub ganhou luz própria ao longo do tempo e desconfio que ele continuará causando danos ao país por muito tempo. Bolsonaro vai, assim, semeando ervas daninhas.

Entendo as celebrações com a sua saída e o otimismo proveniente disso. Mas vale lembrar que ele caiu quando bateu de frente com o Supremo, apesar de, nos últimos 14 meses, ter feito mal a estudantes, professores, pesquisadores, cidadãos comuns que não cintilam como ministros. Além disso, é de Jair Bolsonaro a voz que saía da boca de Abraham Weintraub quando ele xingava os ministros do STF ou atacava a democracia. Com a demissão de hoje, o boneco foi sacrificado no lugar do ventríloquo.

Em tempo: Weintraub deve ter acordado achando que sua saída seria a grande notícia do dia. Mas a prisão de Queiroz foi "uma pica do tamanho de um cometa".

Leonardo Sakamoto